À conversa com Ildebranda Martins – O projeto “Universo Africano”

A arte, a Beltrão Coelho e o “Universo Africano”.

O “Universo Africano”, é um projeto ímpar da autoria de Ildebranda Martins, Curadora da Galeria Beltrão Coelho. Consideramos que é um projeto de relevo na promoção da cultura, da arte e dos artistas. Ildebranda Martins, também ela autora, tem no seu currículo artístico mais de vinte e cinco exposições individuais e vinte coletivas. Nesta entrevista fala-nos um pouco sobre si e sobre o projeto.

“Neste projeto da Galeria Beltrão Coelho, onde exerço curadoria desde 2015, consegui juntar a experiência profissional com alguns conhecimentos artísticos que acumulei ao longo dos anos. 

Iniciei-me artisticamente em 1990 com pintura acrílica sob tela e esmalte sob vidro. Em 1995 fiz as minhas primeiras exposições individuais.

As minhas últimas criações podemos identificá-las, parcialmente, como criações típicas do movimento artístico da “Arte Povera”.”

 

A Beltrão Coelho é uma marca conhecida no mercado. Em que consiste?

Ildebranda Martins: A Beltrão Coelho é uma marca histórica. Está presente no mercado português há quase 70 anos e especializou-se em MPS (Managed Print Services), ou seja, soluções integradas de hardware e software nas áreas de impressão e gestão documental. O objetivo da Beltrão Coelho é continuar a ser uma referência na sua área de atuação, mas sempre mantendo, como norma, uma conduta socialmente responsável.

Como surgiu a galeria Beltrão Coelho? Qual o seu propósito?

Ildebranda Martins: A Galeria Beltrão Coelho é criada com o propósito de promover e auxiliar o progresso da arte em todas as suas manifestações: pintura, escultura, design, ilustração, ourivesaria, fotografia, vídeo, entre outros, defender os interesses dos artistas e tornar grátis e acessível ao publico em geral a arte.  Em setembro de 2015 inaugurou o seu espaço cultural, numa época em que ocorreu um decréscimo nos apoios culturais. O usufruto dos artistas na Galeria Beltrão Coelho passa pela oferta de Catalogo (20 páginas),   do beberete com serviço de catering, convites em suporte  digital,  serviços de comunicação e divulgação em vários suportes, apoio administrativo na elaboração e impressão de tabelas, preçários,  cartazes promocionais, fornecimento de equipamento e instrumentos  para todas as manifestações artísticas, apoio logístico nas montagens e desmontagens, acompanhamento personalizado das visitas na inauguração e durante o período em que se encontram patentes as exposições, seguro das obras pelo valor atribuído pelo artista, serviços de fotógrafo profissional no dia da inauguração, uma sala de apoio para as montagens e desmontagens.

Nas voltas da vida, como aconteceu o seu encontro com a Beltrão Coelho?

Ildebranda Martins: É uma empresa que há muitos anos faz parte da minha vida desde há muitos anos mas de forma indireta, através do meu marido.  A minha relação direta e integrada tem três anos, aquando da montagem da galeria Beltrão Coelho.

 

Em 2002, depois de já ter experimentado vários materiais de pintura, frequentado, como espectadora, algumas galerias de arte e museus,

participado em exposições, pesquisado e lido sobre a evolução da arte resolvi frequentar o Curso de História de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa. 

Sou definitivamente uma autodidata.”

 

Quais os projetos em que participou?

Ildebranda Martins: Iniciei a minha carreira profissional como administrativa e secretária na comunicação social (Revista mensal), posteriormente exerci atividade na área da saúde (ACS-PT, clínicas médicas), passei ligeiramente pelo equipamento hoteleiro, pelas madeiras e aglomerados, para mais tarde e por fim, durante quinze anos, envolver-me no universo comercial dos brinquedos e do vídeo jogos (Concentra/Nintendo).  A assistência comercial foi a função que exerci durante mais tempo, a que mais monopolizou a minha atenção e me despertou o gosto pelas relações públicas e a área comercial. Neste projeto da Galeria Beltrão Coelho, onde exerço curadoria desde 2015, consegui juntar a experiência profissional com alguns conhecimentos artísticos que acumulei ao longo dos anos.

Iniciei-me artisticamente em 1990 com pintura acrílica sob tela e esmalte sob vidro. Em 1995 fiz as minhas primeiras exposições individuais, em bares, restaurantes, lojas, clubes e associações.  Em 2002, surgiu-me a oportunidade de expor individualmente numa galeria de arte comercial. Em 2008 iniciei o processo de candidaturas a bienais de arte a nível nacional, a galerias de arte municipais e espaços expositivos alternativos, onde a interação das artes ocorre frequentemente.  Em 2002, depois de já ter experimentado vários materiais de pintura, frequentado, como espectadora, algumas galerias de arte e museus, participado em exposições, pesquisado e lido sobre a evolução da arte resolvi frequentar o Curso de História de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa.  Sou definitivamente uma autodidata.

As minhas últimas criações, muitas delas instalações, assentam em manequins sobre os quais foram aplicadas peças diversas do dia-a-dia.  Provavelmente, devido à prática da reciclagem e reutilização de material usado na construção dessas obras, podemos identificá-las, parcialmente, como criações típicas do movimento artístico da” Arte Povera”.  No entanto, não podemos identificar a minha obra como património de uma única corrente cultural.  Atualmente estou inteiramente ligada à arte, pois desde da abertura da Galeria de Arte Beltrão Coelho em 2015, um projeto de responsabilidade social onde exerço a função de curadora, que profissionalmente também estou ligada à criatividade cultural.

É a coordenadora do projeto “Universo Africano” e em projetos anteriores teve a sua participação enquanto artista, pode-nos falar um pouco de si nessa qualidade?

Ildebranda Martins:  De momento, fora do projeto da Galeria Beltrão Coelho, onde trabalho como curadora, participo como artista e organizadora em exposições individuais e em projetos coletivos que fundei, como os das “Mulheres com Arte” e “Universo Africano”.

 

Como autora do projeto “Universo Africano” pode descrever um pouco do que se trata, como surgiu a ideia e quais os objetivos?

Ildebranda Martins: A ideia da exposição “UNIVERSO AFRICANO” surgiu na Galeria Beltrão Coelho, inspirada na história de vida da Isabel Batata Doce, cujo drama remete-nos para uma mais abrangente, a da época do “Império Ultramarino” e das consequências da designada “Guerra Colonial”. Como a exposição que ocorreu em 2017 foi considerada um sucesso e inspirou  muitos outros curadores, galeristas e organizadores de eventos,  os artistas envolvidos manifestaram vontade em dar continuidade ao projeto. Assim surgiu a segunda versão da exposição. O plano geral da exposição coletiva (versão II) abrangeu  pintura, escultura, fotografia, estilismo,  acessórios de moda, artesanato de origem africana ou que denuncie a presença de uma  personalidade coletiva africana.  O evento ocorreu no dia 26 de maio, em vários estabelecimentos situados  na  Rua São João da Mata, em Santos,  Lisboa. Os artistas participantes mantêm-se os mesmos, exceção para o Malenga. Ao projeto juntou-se o Cristiano Mangovo, Valdemar Dório, o estilista Mons Amade Acessórios. A fonte de inspiração, a Isabel Batata Doce e organização e coordenação da curadora da Galeria Beltrão Coelho.  Nesta II versão participarei também como artista.

 

“O objetivo destas exposições é a de promover as relações entre diferentes povos e culturas que têm em comum a língua e raízes histórias. É a de contar a história da Isabel como reflexo de tantas outras que a história criou. 

Estes eventos cultivam o respeito pela diferença e pela diversidade e fazem enterrar velhas magoas, algumas herdades de gerações anteriores”

 

A exposição “Universo Africano” é baseada na história de Isabel Jacinto. Qual a razão para este projeto se basear numa história dramática, mas de superação e tão inspiradora?

Ildebranda Martins: Eu nasci em Angola em 1965, país onde me mantive até os meus nove anos. Ainda hoje sinto uma atração inexplicável por esse país que serviu de berço. Os dramas causados pela colonização e descolonização, pela guerra de guerrilha e pela civil que se seguiu merecem serem contados sem preconceitos, ideias pré-concebidas e tabus. São histórias de vida que merecem ser difundidas pela riqueza das experiências vividas e por isso mesmo, algumas delas sejam consideradas representantes de um coletivo. A da Isabel é de uma riqueza emocional arrebatadora e agrega vários sentimentos contraditórios.

O objetivo destas exposições é a de promover as relações entre diferentes povos e culturas que têm em comum a língua e raízes histórias. É a de contar a história da Isabel como reflexo de tantas outras que a história criou.  Estes eventos cultivam o respeito pela diferença e pela diversidade e fazem enterrar velhas magoas, algumas herdades de gerações anteriores. Tem por isso um papel social.

Recentemente foi convidada por Fernando Alvim para falar da exposição “Universo Africano”. Qual o papel que atribui à comunicação social na divulgação de projetos culturais como este?

Ildebranda Martins: A Comunicação social é imprescindível na divulgação da cultura, na mobilização social à volta de projetos artísticos, no impulsionar da criatividade. É uma forma de partilha de informação que chega a muitos e que por causa disso consegue ser muito mobilizadora.

 

“Desejo evoluir como artista e que as minhas obras possam cada vez traduzir os meus pensamentos e preocupações, serem literalmente páginas do meu diário de interpretação indireta.”

 

Quais os seus próximos desafios individuais e/ou profissionais?

Ildebranda Martins: Eu quero continuar a fazer parte de projetos coletivos, como os que ajudei a fundar, onde possa ser artista e participar também na organização dos eventos.  Ajudar, quer através da Galeria, quer individualmente, os artistas a interagirem uns com os outros, a criarem um ambiente, não de cooperativismo, mas de equipa. Desejo evoluir como artista e que as minhas obras possam cada vez traduzir os meus pensamentos e preocupações, serem literalmente páginas do meu diário de interpretação indireta.

 

“essencialmente sejam genuínos e coloquem a alma no que fazem, que a arte que criam os representem, sejam inovadores e ousem quebrar algumas convenções e alguns sentidos de estética dominantes. “

 

Que mensagem quer deixar a todos os que sentem ter algo de artístico para partilhar e ainda não tiveram a coragem de o fazer?

Ildebranda Martins: Não sejam tímidos, nem tenham receios de serem ridicularizados, de não ser suficientemente bons. Experimentem materiais, visitem exposições e museus, ouçam e observem os seus pares, se for possível, estudem técnicas, mas essencialmente sejam genuínos e coloquem a alma no que fazem, que a arte que criam os representem, sejam inovadores e ousem quebrar algumas convenções e alguns sentidos de estética dominantes.

Alguma coisa ficou por dizer e que considere importante referenciar aqui?

Ildebranda Martins: Que a arte não seja encarada como algo elitista e intelectual, que haja iniciativas conjuntas e projetos coletivos, que haja cada vez mais histórias, como as da Isabel, a serem contadas de diferentes formas, inclusive pela via da arte plástica, fotografia, etc.

Veja Aqui uma galeria de Obras de Ildebranda Martins.

 

Também pode gostar

1 comentário

Deixar uma resposta