O Carteiro e o Retrato

A importância de ter um cartão com fotografia

“Naquela época, ter um cartão, com fotografia e carimbos de entidades oficiais era coisa que dava uma certa importância. Sim, porque quando aparecia alguém de Lisboa ou de outra cidade ao abrir a carteira e exibia um ou outro cartão, deixava o pessoal da aldeia extasiado. A importância, o respeito e a admiração, era ainda maior se o cartão tivesse as cores da República. Razão pela qual o jovem Carlos, já pensando no futuro, considerava que ter o cartão da segurança social, era um marco histórico na sua vida. Certamente, iria passar a ter mais e melhor aceitação no grupo dos mais velhos, que é sempre o desejo dos (demasiado) jovens.”

 

Corria o mês de abril do ano de 1953 quando numa pequena aldeia do interior do país, nasce uma criança do sexo masculino a quem foi dado o nome de Carlos. Todos os dias o carteiro passava, sempre à mesma hora, na aldeia para deixar as cartas na taberna do Chico. Este era o local do ponto de encontro dos habitantes da aldeia, os homens juntavam-se ao fim do dia para conversar e beber um copo de vinho, as mulheres iam abastecer-se de alguns produtos de mercearia e à noite e aos domingos os mais jovens juntavam-se para jogar às cartas ou ao dominó. Era o Chico que, mesmo sendo pouco letrado, lia e escrevia as cartas a muitos dos habitantes da aldeia que não sabiam ler nem escrever.

O sino da igreja assinala as horas

Mas, voltando à casa onde uma mãe acabava de dar à luz o seu terceiro filho ajudada pela ti Conceição, a “parteira” que assistia a todos os nascimentos na aldeia e em outras na zona, no preciso momento em que se ouvia o barulho de uma motorizada. Era o carteiro! Este chegava, mais coisa menos coisa, por volta das 10 horas, ficando assim registado na memória dos presentes aquela hora como sendo a que o “pimpolho” veio a este Mundo.

 

Nessa época os relógios eram coisa rara, quase um luxo de que só os mais abastados desfrutavam. Os outros, a maioria, guiavam-se pelo sol ou, conforme a distância e o vento, contavam as badaladas do sino da igreja.

 

 

 

O tempo foi passando e o Carlos, como muitas outras crianças das aldeias deste país, foi crescendo com as dificuldades económicas que, naquela altura afetavam a generalidade da população. Desde muito jovem, mesmo durante a escola primária, começou a trabalhar para ajudar a família. Ao completar os 14 anos, já experiente no trabalho duro e mal pago, precisou de tirar fotografias para o cartão da segurança social que uma fiscalização não anunciada tinha determinado.

A ida ao fotógrafo

Chegado o dia de ir ao fotógrafo com o qual foi antecipadamente combinado, não fosse este ausentar-se para outras paragens. Acordou cedo, mal tinha pregado o olho, tal era a excitação e expectativa que a ida ao fotógrafo lhe estava a causar. Arranjou-se com esmero, vestiu a roupa que a avó lhe tinha oferecido, umas calças azuis escuras, uma camisa branca e a imprescindível gravata. Demorou tempo até conseguir colocar a gravata e fazer o nó como a avó lhe tinha ensinado, mas, no final, ao mirar-se no pequeno espelho que havia em casa achou que o resultado era muito bom. Agora só faltava a comprovação, que as fotografias certamente lhe iriam trazer, de parecer um rapaz feito.

Acompanhado pelo pai, foram a pé até à vila que distava uns 6 km da aldeia. A sua preocupação enquanto percorria o caminho de terra batida, pois pela estrada era mais longe, era caminhar com muito cuidado e fora dos “escavados” trilhos empoeirados para não sujar os sapatos que na noite anterior estivera a polir com creme “Viriato”.

Finalmente chegaram ao estabelecimento “Fotografia Lopes”. Entraram para uma pequena sala onde o balcão de madeira, com uma aba que abria sobre dobradiças por onde os clientes entravam para o interior, separava o atendimento público do estúdio fotográfico.

O Carlos não parava de olhar para os retratos expostos nas prateleiras que preenchiam uma das paredes. Fotografias de raparigas vestidas com a roupa do domingo, o que as tornava ainda mais bonitas, de senhoras vestidas e penteadas como ele nunca tinha visto, noivas, magalas fardados e um que o deixou com uma pontinha de inveja pelas divisas que ostentava.  Oh! como deveria ser fácil àquele rapaz arranjar uma bonita namorada, se calhar, até uma das poucas que andavam a estudar.

Como gostaria de já andar na tropa, de vestir uma farda como aqueles rapazes das fotografias e, se também tivesse umas divisas …, isso é que seria bom! Se assim fosse, quase de certeza, que na aldeia todos o iriam respeitar e admirar. Embalado por este sonho, despertou com a voz fria e altiva do Sr. Lopes que, do outro lado do balcão, se fez ouvir com o: “Então vamos lá ao retrato porque tenho outra freguesia para atender”.

Entrou para outra sala onde havia uma grande máquina fotográfica um candeeiro que achou muito estranho e uma cadeira à frente da máquina fotográfica. Depois de arranjar o cabelo com as mãos não fosse estar desalinhado, sentou-se sério e muito direito na cadeira, o Sr. Lopes tirou-lhe o retrato. Saíram depois do pai pagar, o Sr. Lopes meter o dinheiro numa gaveta e de lhes dar um papel que dizia que as fotografias estariam prontas dali a 15 dias.

Ansioso por ter nas mãos o retrato, os dias custavam a passar. Contava os dias que faltavam até chegar o tão esperado 15º dia. Outra vez, outra noite mal dormida. Levantou-se cedo e lá foi quase correndo o tempo todo ao longo dos 6 kms que o separavam da vila. Cumprimentou o Sr. Lopes e o seu ajudante, o Zé, um rapaz de uns vinte e poucos anos que, pelo facto de ter algumas dificuldades cognitivas, muitas vezes atrapalhava-se e quase cortava mal as fotografias impressas, motivo pelo qual o Sr. Lopes o repreendia com frequência e o observava com toda a atenção não fosse estragar o trabalho já pronto. O Carlos retirou o papel do bolso das calças e entregou-o ao Sr. Lopes que mandou o Zé ir buscar as fotos e coloca-las dentro de uma capa plástica dobrada ao meio, preta com o nome, morada e telefone gravado em letras douradas.

Sem se conter, mal tem nas mãos a capa com as fotografias, abre-a e observa as fotos. Que desilusão! Fica branco sem pingo de sangue na cara. De tal forma que o Sr. Lopes lhe pergunta: O que se passa rapaz? Não estás bem ou não gostas do retrato? Ele reponde-lhe que não, que está tudo muito bem. Saiu cabisbaixo e já na rua voltou a olhar para as fotografias, ali estava ele numa fotografia que mostrava um rapazinho de 14 anos e não, como ele tanto desejava, um jovem de 17 ou 18 anos.

A recordação que fica na memória

O tempo passou, agora recorda com alguma nostalgia, este episódio e a vontade que tinha de ser gente crescida, aceite e respeitado pelos mais velhos.

Tal como diz Kafka “ Vi-me forçado a aquecer-me com um fogo que ainda não tinha começado a procurar.” Toda a minha vida procurei incessantemente fazer como se já fosse e acabei sendo.

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