#5 – Os 10 tostões do Carlos

Nesta história, vamos contar mais um episódio da vida do Carlos e do amigo que regressou da tropa e vai casar com a Ana Maria.

O serviço militar obrigatório

O Manuel, o bom amigo do Carlos embora bastante mais velho, regressara da tropa cumprida em Angola, havia já um quase um ano. Na época das guerras coloniais os jovens de todo o país eram obrigados a cumprir o serviço militar que durava de dois a quatro anos. Quando atingiam os 18 anos, passavam por todo um processo de recenseamento e inspeção médica. Os que eram dados como aptos para o serviço militar, depois da recruta, seguiam nos contingentes militares para combaterem nas antigas colónias em Angola, Guiné e Moçambique.

Os que conseguiam “escapar da tropa” ou “livrar-se da tropa” eram os jovens que não compareciam à inspeção, tornavam-se desertores e tinham de sair clandestinamente do país. Outros ficavam livres devido a alguma deficiência física sendo considerados inaptos, ou ainda os que alegavam ser o amparo dos pais.

O regime político de então, fomentava a adesão dos jovens à ida voluntária para a tropa. Numa população muito pobre e pouco instruída, o facto dos soldados receberem o soldo, conjuntamente com outras práticas persuasivas utilizadas, eram razões suficientes para motivar os jovens. No momento da inspeção eram atribuídas fitas de cores diferentes. Os aptos compravam uma fita verde e vermelha, simbolizando as cores da bandeira, com a inscrição de “Apurado para todo o serviço militar”. Os que, por qualquer situação, ficavam livres do serviço militar compravam uma fita branca com a inscrição de “Livre do serviço militar”. Entre jovens de 20 anos, ter uma fita branca era motivo de alguma troça. Era como se fosse menos valorizado pois, nestas circunstâncias e naquela época, o valor de um jovem era essencialmente medido pela aptidão física. Era esta a cultura que se impunha um pouco por todo o país, sentida e vivida com mais intensidade nos meios rurais. Uma época em que também as mulheres eram menos valorizadas pois, fisicamente eram mais fracas.

A carta

Ana Maria andava feliz, amava o Manuel e já tinham data marcada para casarem na igreja da sede de freguesia.  Ficariam a viver com os pais do Manuel, mas só até arranjarem uma casa velha que era dos avós dela, já falecidos.

Faltava pouco mais de uma semana para o tão desejado casamento quando vai à Taberna do Chico comprar arroz conforme a mãe lhe havia pedido e o Chico lhe entrega uma carta.

Chega a casa um pouco ruborizada da excitação de tal modo que a mãe lhe pergunta: – Ó Ana, o que tens que vens tão corada? – Não é nada mãe, foi de vir a andar depressa e está calor, responde a Ana escondendo a carta. Vou ali ao chafariz buscar água que já há pouca. – Vai lá e leva o cântaro azul que já está vazio, diz-lhe a mãe.

Ana sai apressada de casa com o cântaro azul e uma rodilha entrançada a fazer uma argola, usada na cabeça para melhor sustentar o cântaro com a água.  Antes de chegar ao chafariz, desvia-se um pouco para se esconder atrás de um muro de uma propriedade, por onde habitualmente não passava ninguém. Senta-se no chão e olhando, não fosse estar por ali alguém a passar, tira a carta e abre.

– Oh! Era o Alfredo que regressava da tropa, da Guiné onde cumprira o serviço militar. Estava a escrever-lhe porque ia regressar e queria casar com ela. Ana fica apreensiva, recorda-se de irem os dois juntos a caminho da escola pois eram vizinhos. Recorda-se que, mais tarde, houve situações em que o Alfredo foi simpático com ela e lhe carregava o cântaro da água. Para além disto ou de outras breves conversas que tiveram antes de ele ir para a tropa, nada mais havia entre os dois. Se bem que, quando ela se foi despedir dele à saída da aldeia, no dia em que foi embora, ele dera-lhe um beijo na face.

Ana pensa: Não pode ser! Eu gosto é do Manuel e já me vou casar na próxima semana. Vou ter de lhe falar logo que ele chegue. Mas ele chega precisamente no dia do meu casamento! Como hei-de fazer? Talvez escrever-lhe de volta. Não pode ser, ele diz que já vai embarcar para a viagem de regresso. Terei de lhe falar depois. O melhor é rasgar a carta antes que alguém a apanhe e estrague o meu casamento. No entanto, Ana fica contente por saber que o Alfredo chega bem de saúde. Lembrou-se que ainda no mês passado chegara a notícia de que o Fernando da ti ´Alda tinha morrido ao serviço da pátria, da tristeza e apreensão que se instalou em toda a aldeia. Lembra-se também dos momentos em que o seu Manuel se sentia e comportava de forma um pouco estranha. Ele dizia-lhe que eram lembranças de momentos difíceis passados na guerra.

Os 10 tostões do Carlos

Estava a Ana Maria absorta nestes pensamentos quando vê aproximar-se o Carlos. Vinha com cara de quem tinha vivido algo perturbador. Ela admirava muito aquele rapazito, sempre muito desembaraçado e aprumado. Sentia-se como sendo uma irmã mais velha do Carlos e gostava de o proteger.

O Carlos senta-se no chão e muito comovido conta-lhe o sucedido.

Tinha ido à taberna para comprar 10 tostões de rebuçados. Eram 10 tostões que tinha guardado do dinheiro ganho nos trabalhos que ia fazendo. Já estava a imaginar a abrir e a meter à boca os deliciosos rebuçados de torrão de açúcar, embrulhados em papel colorido.

Ao entrar na taberna assiste a uma cena, sucedida entre alguns homens da aldeia e a ti´Matilde, que o deixou perturbado e que conta à Ana Maria.

A ti´Matilde, a mulher do gateiro

A ti´Matilde era uma mulher muito simples, muito pouco cuidada tanto na higiene pessoal como de casa. Tinha quatro filhas e viviam em grande pobreza. Sobreviviam das escassas esmolas que lhes iam dando quer em dinheiro quer em bens. O marido também era uma pessoa muito simples.  Trabalhava como “gateiro”, arranjava as varetas das sombrinhas, afiava facas e tesouras e punha “gatos” nas louças.

Peça de louça com gatos

Ser gateiro era uma profissão muito solicitada naquela época.  “Deitar-gatos” nas louças partidas era a solução para lhes prolongar o uso. Unia os cacos colocando “gatos” (um pedaço de arame terminado por duas pequenas garras), fixando-os de modo a ficarem bem apertados e assim unirem as peças partidas.

Não abundando o dinheiro, pelos trabalhos que fazia recebia em géneros pão, batatas, feijões, fruta etc., mas a ti´Matilde não sabia cozinhar e as filhas eram ainda eram muito pequenas, a família vivia muito mal.

Por tudo isto, a ti´Matilde servia de chacota aos outros habitantes da aldeia.

Os tão desejados rebuçados

O Carlos que tinha acabado de entrar na taberna para, com os seus 10 tostões, comprar os tão desejados rebuçados, vê a ti´Matilde e os homens (alguns já bêbados), com risadas maldosas troçando-a. A ti´Matilde, sem ter capacidade de reação aos insultos, fica em pranto invocando que todos faziam pouco da desgraça.

Ficou de tal modo sensibilizado com o sofrimento que estavam a provocar à mulher, que “rapou” o fundo dos bolsos de onde retirou os seus 10 tostões e comprou um pão. Saiu sem dizer nada a ninguém e aguardou escondido, no caminho da casa da ti´Matilde, que esta passasse.  Quando a viu, saiu do esconderijo e dirigiu-se à senhora oferecendo-lhe o pão. Sem dizer mais nada afastou-se porque, na realidade, estava de tal forma comovido que não conseguia falar. A sua atitude significava também um pedido de desculpas pelo mal que os outros homens tinham acabado de lhe fazer.

Ana Maria fica comovida com a atitude do Carlos e promete-lhe que dará à ti´Matilde um bom prato de comida da sua boda. Os dois amigos ficaram ali sentados a conversar. A Ana Maria já se havia demorado, despede-se do Carlos e cada um segue para casa.

A preparação da boda

O resto da semana correu rápido, andou tão atarefada que nem mais se lembrou do episódio da carta e do Alfredo. Os preparativos da boda, de acordo com as posses das duas famílias iam sendo feitos. Ana anda absorvida e feliz, ia a casa da ti ´Joana que tinha uma máquina de costura, ajudar a fazer o vestido novo para o casamento era um tecido que a mãe lhe comprara na feira de um azul muito claro e muito bonito.

Na véspera do casamento ajudou a mãe a fazer o pão para cozer no forno da aldeia, fizeram arroz doce e uns bolos com azeite, ovos, açúcar e nozes. Ajudara a preparar e a temperar um cordeiro que o pai escolhera do pequeno rebanho que tinham, e um galo para fazer a canja.

Os padrinhos iriam ser o senhor e a senhora Silva, uma família considerada na aldeia pois tinham um negócio de venda ambulante nas feiras que lhes corria bem.  Tinham-lhe prometido levar um bolo para a boda. Também lhe iam dar pratos novos e copos.  Os pais do Manuel, nesse ano, tinham colhido bom vinho e iam servi-lo, também iam levar fruta que colhiam de algumas árvores existentes numa pequena propriedade.

O dia do casamento

Chegou o tão aguardado dia! Era um domingo e todos os habitantes da pequena aldeia tinham vestido o seu fato domingueiro para assistirem ao casamento e irem almoçar uma boa refeição preparada pela família dos noivos. Este, era um momento muito aguardado por todos os habitantes da aldeia pois era a uma oportunidade de comerem bem.

Na época, os alimentos utilizados diariamente eram muito simples e produzidos pelos próprios. A alimentação diária, para além do vinho, consistia num caldo de couve, batatas, feijões e de um pouco de carne de porco morto pelo Natal que tinha de durar o ano inteiro. Só nas festas se comia cordeiro com batata e, nas doenças se matava alguma galinha. Os ovos raramente se comiam, eram vendidos na vila mais próxima para amealhar alguns trocos que eram utilizados em situações muito especiais.

Na noite de sábado tinha chegado o Alfredo e, pela agitação que se vivia na aldeia, soube que ia casar a mulher que o seu coração escolhera, mas sabia que não tivera coragem para, em tempo próprio, lhe falar. Assim, sentiu que tinha de deixar passar o tempo para apaziguamento com tudo e todos, pela vida que deixou suspensa com a experiência da guerra.

Anel de Noivado

 

A igreja estava toda iluminada
Muita gente convidada
Eu também fui para ver
Ninguém sabe a tristeza que sentia
Porque mesmo nesse dia
Casava a mulher amada

Fotografia de uma porta revestida com uma imagem de noivos- Ribatejo, Tomar.

Ela chegou acompanhada do padrinho
Que a levava ao seu destino
O que eu nunca imaginei
E por momentos tive toda a ilusão
Que o seu anel de noivado
Já perdera o coração

À saída igreja iluminada
Ela estava já casada
A mulher que eu adorei
Entre vivas de parentes e de amigos
Acerquei-me a desejar-lhe
Que seja sempre feliz

E aconteceu o que ela nem sequer pensara
Encontrar-me cara a cara
E não soube o que dizer
E foi chorando, sem notar que no seu pranto
Seu vestido vai molhando
Ao chorar de amor por mim

Trio Odemira

 

Esta quinta história/crónica faz parte de uma série de outras histórias feitas de imaginação e memórias, leia em:

#1 – O Carteiro e o Retrato

#2 – O professor inesperado

#3 – Um bom par de Botas

#4 – A festa, o mordomo e a motorizada vermelha

 

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