À conversa com Ildebranda Martins, artista plástica

Ildebranda Martins, artista plástica. Há cerca de um ano falámos com Ildebranda Martins a propósito do projeto “Universo Africano” e da sua atividade como curadora da Galeria Beltrão Coelho. Mas a criatividade de Ildebranda Martins, não se esgota na sua profissão de curadora, ela própria é uma artista plástica que quer evoluir, conforme nos disse:

 

Desejo evoluir como artista e que as minhas obras possam cada vez mais traduzir os meus pensamentos e preocupações, serem literalmente páginas do meu diário de interpretação indireta.”

Obra de Ildebranda Martins

 

O que fez despertar o seu interesse pelas artes plásticas?

Percebi que queria ser artista ainda muito jovem, mas antes ainda de o ser, em parte porque o meu comportamento social denunciava a presença de uma singularidade no pensamento, uma tendência para a reflexão e a introspeção, o que originou alguns problemas.  Conseguia mentalmente “sair” do meio onde estava, abstrair-me e refletir no que me rodeava como se de um cientista se tratasse. Olhava para a sociedade através de um tubo de ensaio e escrevia. Mas só iniciei na arte plástica em estado adulta.  Em casa dos meus pais incentiva-se à leitura, mas não à pintura, possivelmente porque os meus pais tinham um conceito de limpeza e arrumação com padrões exigentes.

 

A vontade de criar as suas próprias obras nasceu consigo? Foi algo que a fez descobrir esse talento ou foi um processo evolutivo?

A minha criatividade inicialmente manifestou-se através da escrita, depois mais tarde pela via do desenho abstrato e só posteriormente, já com espaço próprio, com as condições criadas para a expansão artística, dediquei-me à pintura e instalações.
Obra de Ildebranda Martins
A Inversão – Obra de Ildebranda Martins

 

Que materiais e técnicas utiliza na criação das suas obras? Fale-nos um pouco do seu trabalho como artista plástica.

A pulsação da minha vida artística, embora com mais de trinta anos de carreira, sofreu muitas oscilações e tem sido pautada por ritmos diferentes ao longo dos anos, conforme as minhas ansiedades, as minhas necessidades de reflexão e de partilha. Cada peça representa um pensamento, um conjunto de obras com o mesmo alinhamento um estado de espírito.

São definitivamente páginas de diário em que cada coleção constitui um ritmo de vida específico de uma determinada altura da minha vida.  O uso dos manequins nos últimos anos, decerto está relacionado com a minha necessidade crescente de criar ambientes cinéfilos e teatrais, em que a fantasia e a realidade se fundem e em que o sonho se torna realidade e vise versa.

No início recorria muito a materiais mais convencionais na pintura, a telas, vidro, tinta de esmalte e de acrílico. Experimentei também tintas de óleo, vitral, tecido, em parte porque como autodidata tinha de experimentar para aprender.

 

É necessário ter coragem para mostrar ao público aquilo que se cria. Quando e onde fez a sua primeira exposição? Que obras apresentou?

A minha primeira exposição, a que considerei um marco, foi num bar em Carnide-Lisboa, dedicado às artes. Estávamos, salvo erro, em 1995, numa época em que não havia muitos espaços alternativos para expor.  Já tinha exposto antes, mas em locais de trabalhos, em lojas de gente conhecida, em zonas de conforto. As obras que apresentei nessa exposição foram em telas e sobre superfícies de madeira, género artístico basicamente abstrato, mas já algumas com colagens.

 

Considera que o facto de ter nascido em Angola tem influencia nas suas criações? O que a inspira para a concretização de uma obra?

África é um Continente ainda muito virgem, em que a natureza e os hábitos culturais ancestrais e tribais se fundem com a civilização ocidental, do tipo europeia. Há um misto cultural e social que serve de inspiração.Julgo que o processo de descolonização de ANGOLA, da qual sou originária, pode ter contribuído também para o nascimento da artista porque correspondeu a momentos de grandes mudanças, o que originou muitos períodos de introspeção e de reflexão.

O ambiente envolvente a nível cultural, social, político em que estou inserida diretamente ou indiretamente sempre foi a fonte principal da minha inspiração.

Normalmente a minha obra nasce assente numa ideia, num pensamento, num conceito, numa reflexão sobre o  que me rodeia.

 

A Contaminação – Obra de Ildebranda Martins

 

Tem alguma obra “especial”, que seja a preferida ou que lhe tenha dado mais prazer realizar?

Todas as obras contam a minha história e localizam-me no tempo, mas as que marcaram uma mudança de estilo, de matéria prima são as mais importantes porque constituíram um desafio.

 

Há algum artista que admire e seja para si uma referencia?

Possivelmente por ser curadora da GALERIA BELTRÃO COELHO e autora dos coletivos “MULHERES COM ARTE”, “UNIVERSO AFRICANO” e estar envolvida no meio artístico, em que é necessário ter a mente aberta e ser recetivo a todas as manifestações artísticas não escolho nenhum artista ou obra.

A inovação inspira-me particularmente, mais ainda do que o domínio total das técnicas. Todos os que quebraram regras e criaram novas correntes artísticas merecem o meu respeito particular.

 

Para quando e onde o próximo evento expositivo onde se possam apreciar as suas obras?

O ano passado tive quatro exposições individuais, três com o coletivo “Mulheres com Arte” e uma com Universo Africano, mas que envolveu oito estabelecimentos, duas participações em bienais de arte e fiquei exausta.  Hoje em dia o artista, em quase todos os espaços expositivos, tem de assumir o papel de marchand d’art e ser responsável pela divulgação, pelos processos administrativos e logísticos inerentes a uma exposição. Quando se trabalha das 9 às 18 horas, em horário fixo, com objetivos para cumprir, a disponibilidade reservada para estes processos de construir uma exposição é diminuta porque também acresce ao emprego o  trabalho doméstico, de assistência à família e de outras naturezas.  Este ano já tive duas individuais e duas coletivas e creio que o limite razoável foi atingido.   Há projetos de novas exposições, mas que ainda estão em estudo. A experiência diz-me que devemos anunciar projetos em fase de concretização, de forma sustentável e de reservar tempo para criar.

 

Como artistas plástica, quais são os sonhos a concretizar

Não sou de natureza ambiciosa e nem sonhadora. Quero evoluir como artista plástica, experimentar novas técnicas e conseguir manter a curiosidade relativamente a novos materiais, ter a coragem de sair da zona de conforto e inovar sempre, quero continuar a expressar as minhas ideias e sentimentos através da arte, ser respeitada pela obra que realizo, fundamentar a promoção com qualidade.

 

 

Leia Aqui a entrevista a Ildebranda Martins enquanto curadora da Galeria Beltrão Coelho

Aprecie Aqui uma Galeria de Obras de Ildebranda Martins

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