À conversa com Inês Sarti Pascoal – uma “cena” inspiradora

Inês Sarti Pascoal, uma jovem ativa e apaixonada pela natureza, tem caminhado na busca da concretização dos seus ideais de vida, desempenhando um papel ativo na sociedade e em harmonia com tudo o que nos rodeia.

A sua jovem história de vida, em prol de uma sociedade melhor e mais sustentável, comprova uma atitude comprometida que, sem dúvida, é um exemplo inspirador para outros jovens e que queremos partilhar com os nossos leitores.

 

Inês Sarti Pascoal, pode fazer uma breve apresentação sua?

Olá, o meu nome é Inês, tenho 29 anos, sou de Almada.  Uma amante da natureza.

É no meio da natureza que me sinto em casa.

Quando era jovem, não gostava muito de estudar, então fui para um curso profissional, na expectativa de seguir para o mercado de trabalho quando concluísse o secundário. Tirei gestão ambiental e não consegui trabalhar na área, então percebi que para trabalhar no que gostaria, tinha de me esforçar e prosseguir com os estudos. Licenciei-me em biologia, mas não achei que os conhecimentos que obtive fossem ecologicamente integradores. Faltava algo à biologia para ser a minha praia. Tirei de seguida uma pós-graduação em agricultura biológica. Entretanto comecei a trabalhar em sensibilização ambiental, uma área da qual me identifico bastante, e decidi frequentar um mestrado em educação ambiental. Por um lado, para ter o reconhecimento académico de que estou a fazer algo que sou capaz, por outro, aprender novas técnicas para executar as atividades que tenho de planear.

 

Como surgiu a paixão pela natureza? A educação e o ambiente em que cresceu, contribuíram para este gosto ou foi algum acontecimento específico que lhe despertou esta paixão?

O gosto pela preservação da natureza veio da minha mãe, que é professora de Ciências. Lembro-me quando íamos à praia, de a minha mãe tentar mostrar-me seres vivos como lapas, algas, e eu não ligava nenhuma! Ou melhor, tentava fazer-me de desinteressada. A verdade é que o bicho ficou dentro de mim e agora não consigo tirar.
Também me lembro de há coisa de 20 anos, irmos (de carro) levar as garrafas de vidro para o vidrão. Nessa altura, estava a começar a haver ecopontos onde nós morávamos, mas ficavam longe e não havia separação de todo o tipo de resíduos. Desde então, sempre tive muito cuidado a separar resíduos para reciclagem.
Os meus interesses têm também vindo a mudar ou expandir. Há 12 anos, resíduos era a minha cena, pela experiência familiar e mesmo pela experiência que tive no curso de gestão ambiental – visitar um central de separação de resíduos da Amarsul, uma central de compostagem, a ETAR de Porto Brandão, foram atividades pedagógicas que me expuseram ao processo de tratamento dos resíduos e fomentaram o meu interesse pelo mesmo.
Já há 6 anos, alimentação biológica era a minha cena, pois comecei a ter mais cuidados com a minha alimentação, ler os rótulos dos alimentos, também a disciplina de Nutrição que tive na pós-graduação veio dotar-me de conhecimentos científicos sobre algo que eu já gostava…. E como todos temos de comer, essa comida pode ser produzida em respeito pelo meio. Será a base de um planeta saudável.
Hoje em dia a minha cena são as bicicletas como forma de tirar carros da cidade, mas essa história fica para outro dia.

O contexto familiar, a educação formal e o gosto pessoal, foram os 3 elementos determinantes para eu ser como sou.

 

Sabemos que tem feito muito voluntariado. Houve algum dos projetos de voluntariado em que já participou, que a fez sentir mais realizada e porquê? Ou todos são especiais e lhe deixam marcas positivas?

Em cada experiência, aprendi algo diferente. E tenho o privilégio de já ter algumas.

Em 2017, fiz um curso de empreendedorismo social, com a Associação WACT, no qual tivemos a formação teórica em Lisboa durante alguns meses, e depois estive 6 semanas a implementar um projeto de forma voluntária em São Tomé e Príncipe. O Bô Energia pretendia aproveitar as serraduras de madeira das carpintarias (um resíduo que não é aproveitado pelas populações locais), para transformá-las em briquetes que poderiam ser utilizados como combustível para cozinhar, em substituição do carvão vegetal produzido através do abate e queima de árvores. Era como resolver dois problemas ambientais com uma solução fantástica. A ideia já era implementada noutros locais do mundo, portanto teria tudo para ser viável. A questão que se coloca é que um projeto só irá ter sucesso se houver alguém (habitante local ou um voluntário) tenha vontade de permanecer na região para, o desenvolvimento do projeto.
Ação de sensibilização sobre briquetes.
Em 2018, fui voluntária Erasmus+, através da Associação Mais Cidadania, no qual passei um mês na Grécia envolvida num projeto que tinha como objetivo construir um barco à vela utilizando garrafas de plástico. O barco iria servir para sensibilizar para a questão dos resíduos de plástico, ilhas de lixo marinho,… Mas como era um projeto-piloto, utilizámos garrafas de plástico que vinham diretamente de fábricas, pois não podiam ser vendidas porque tinham defeitos. Pelo que sei, o projeto continuou porque existe uma Associação a trabalhar nele a nível local, e espero que já estejam a utilizar garrafas separadas pelas crianças nas escolas.
O barco “Piratiki”, que construímos com garrafas de plástico.
Estes dois projetos foram os que me deram maior estaleca, pois em ambos estive envolvida na implementação de ideias novas, num contexto diferente da cidade onde vivo, onde partilhei casa com outros voluntários,… No entanto, para ajudar (ser voluntário), não é preciso viajar nem ser um changemaker.

Existem várias iniciativas a acontecer em Portugal, em Lisboa, ou noutra cidade qualquer, nas quais qualquer pessoa pode dedicar o seu tempo a fazer algo útil para a sociedade (esta é a minha definição de voluntariado).

Em atividades de voluntariado ambiental, já participei em atividades de manutenção de hortas biológicas (Quinta Pedagógica dos Olivais), plantação de árvores e controlo de invasoras (ASPEA, Plantar uma Árvore), recolha de lixo no estuário do Sado (Ocean Alive), acompanho há vários anos um amigo meu que faz passeios de reconhecimento de cogumelos (EcoFungos).
Acção de recolha de lixo marinho com a Ocean Alive.

Alguma vez teve dúvidas do trabalho de voluntariado que faz?

Claro que sim. Por exemplo, já participei em iniciativas de pedido de donativos na rua, mas hoje em dia não acho que seja uma iniciativa na qual vou voltar a participar – não sei para onde vai o dinheiro(?), logo não sei se estou a dedicar o meu tempo a fazer algo útil.

E mesmo no voluntariado ambiental, se plantarmos uma árvore que já vai debilitada, será que estamos a criar uma floresta saudável ou apenas a passar um bom bocado longe da cidade? Eu acho que o mais positivo é pegar nessas dúvidas, e tentar resolvê-las.

 

O que mais a fascina nesta sua entrega a projetos de voluntariado?

Este tipo de voluntariado permite-me obter uma mudança visível – ou fica menos lixo na rua, ou ficam mais plantas na zona onde estive a trabalhar, as hortas ficam com um aspeto renovado, ou os participantes de uma atividade saem com um sorriso na cara porque viram tantas espécies de cogumelos que nem sabiam que existiam.

Para além do impacto positivo no ecossistema, posso dizer que participar em todas estas atividades teve um forte impacto positivo em mim, no meu ser psicológico, mas em termos práticos dotou-me de um Curriculum Vitae muito mais completo e uma rede de contactos/parceiros que é uma mais valia para mim a nível profissional.

 

É fácil ser uma jovem voluntária num mundo que vive tão acelerado, com inúmeras solicitações numa sociedade que vive muito em torno das questões materiais?

Torna-se mais fácil se não quisermos que as outras pessoas ajam como nós (experiência própria). Se eu pensar “eu estou aqui a dar o meu tempo para implementar um projeto-piloto e ninguém desta comunidade pega no projeto?”, deve haver algum problema de raiz no projeto. Possivelmente a comunidade terá outros problemas que não foram tidos em conta. É tudo uma questão de prioridades, no caso do ambiente, não pode ser colocado à frente das necessidades básicas humanas (alimentação, saúde, educação). Mas também sem ambiente, não há saúde, por isso tem de se continuar o trabalho de ir colocando o ambiente na agenda do dia, até as prioridades serem diferentes (pode ser uma mudança apenas na mentalidade das pessoas). Hoje em dia já perdi a esperança de tentar mudar alguém, pois sei que apenas posso mudar-me a mim mesma. É claro que é triste quando uma pessoa me diz “atiro esta beata para o chão pois ainda não levo multas”. Tenho de arranjar uma forma de lhe comunicar a informação que eu tenho na minha cabeça. Esse é o meu foco neste momento: melhorar a comunicação.

Em termos das questões materiais, eu acho que realmente sou uma pessoa diferente da média. Só tive um smartphone há dois anos, uso a mesma roupa há vários anos, é até se gastar.

Tento comprar o mínimo de artigos necessários.

Não gosto de frequentar centros comerciais, não vejo TV para não ver anúncios publicitários,… Mas é-me natural ser assim, não o faço com esforço. Admiro muito quem o tenta fazer, não tendo a naturalidade que eu tenho.

Também aqui creio ter sido o contexto familiar onde fui criada: nunca tivemos muito, embora não faltasse nada. Imagino que se me tivessem oferecido um tablet aos 8 anos, um smartphone aos 10 anos, um computador aos 12 anos,… Possivelmente não daria um grande valor a objetos materiais e poderia ficar com um vício de consumo.

 

Inês Sarti Pascoal, quais os seus projetos futuros?

Eu não sei fazer planos para a minha vida, e os projetos de voluntariado sempre foram aparecendo e eu fui aderindo. Este ano letivo tive várias mudanças de trabalho, mudanças de casa, o mestrado ocupou parte do meu tempo pós-laboral. Ainda assim, integrei a Direção Nacional de uma associação de ambiente (LPN) e o Conselho Consultivo para a mobilidade sustentável (FPCUB). Neste momento, são os meus dois projetos de “voluntariado” em vista, embora mais formais que os habituais.

 

A mensagem que Inês Sarti Pascoal, deixa a outros jovens para uma ação mais participativa na sociedade?

Há quanto tempo dizes “eu gostaria de participar naquela cena” e não vais? O que tens de fazer:
  • Deixar os copos de 6ªfeira à noite para haver disposição durante o fim-de-semana para fazer atividades de voluntariado fixes
  • Não ter receio de ir sozinho. Na verdade, em muitas destas atividades onde eu vou não se vê público jovem/jovem-adulto. Quando alguns começarem a ir, rapidamente se tornará normal, acredito eu.
  • Ir! Não penses mais em ir. Apenas vai!
Se nunca ponderaste em participar em atividades de voluntariado, pensa nos benefícios das mesmas:
  • Efeito positivo no meio: seja ele social ou ambiental
  • Efeito positivo a nível psicológico, pois existe uma razão para sair de casa. Muito melhor que andar a tomar antidepressivos para combater depressões.
  • Criam-se novas amizades, pessoas que partilham interesses em comum
  • Criam-se redes de contactos/CV/know how
  • Experiências para a vida que ninguém te tira.

 

Linkdin: Ines Sarti Pascoal

O blog de Inês Sarti Pascoal:

Ambiente activo by Inês

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