À conversa com Cristiano Justino – O projeto Magnificent Skies

Cristiano Justino descobriu as maravilhas da observação de um céu noturno pejado de estrelas que regista em imagens fotográficas de grande beleza – O projeto Magnificent Skies.

Encontrou na fotografia uma paixão que lhe permite exaltar as maravilhas da Terra e do Céu. Cristiano Justino é um conceituado astrofotógrafo, que tem participado em várias exposições nacionais e internacionais e visto o seu belo trabalho ser reconhecido internacionalmente.

A propósito do projeto Magnificente Trees, no qual participa acompanhando Rute Violante, pedimos a Cristiano Justino uma entrevista para que nos falasse de si e da sua forma muito especial de ver e registar a natureza. Um trabalho onde a sensibilidade de Cristiano se casa na perfeição com paixão e arte.

“A poesia é a da natureza, o olhar é o dele.”

Captada no Parque Nacional Peneda-Gerês às 20h46 durante o crepúsculo (muitas vezes chamado de lusco-fusco), com vista sobre a vila de Gerês, onde podemos observar o céu com um brilho de cor lilás-rosa. Este fenómeno ocorre pela dispersão da luz azul e violeta da luz branca do Sol nas moléculas de ar, junto com pequenas partículas de poeira e alguns aerossóis. Acontece neste período pela existência destas partículas na estratosfera (segunda camada da atmosfera) libertadas até grande altitude por dois vulcões: o Raikoke, nas ilhas Curilas, e o Ulawun, na Papua Nova Guiné, que expeliram gases e poeiras a mais de 18km de altura, em Junho e Agosto, respetivamente.

 

Da Alemanha para Portugal, faz carreira em Engenharia Eletrotécnica, mas o seu gosto e talento pela fotografia emergem.  

Nasci na Alemanha onde fiquei até aos 5 anos. Depois estive em Portugal, iniciando a escola primária. Completei o ensino primário na Alemanha. O regresso definitivo a Portugal foi aos 10 anos, para uma realidade escolar bem diferente. Os meus pais são portugueses, regressar foi muito natural.

Sempre fui muito curioso o que me leva a procurar, descobrir e aprender. A fotografia surge com essa busca por mais conhecimento.

Após alguns cursos e muita prática, transporta-me em viagens interiores muito enriquecedoras.
Desde a adolescência que sempre tive hobbies, muitos em simultâneo, pelo que conciliar a área profissional e os diversos projetos é uma questão de gestão de tempo e prioridades.

 

O céu, a terra, as pessoas e as emoções como fontes de inspiração.

Fotografar pessoas permite-nos observar aspetos físicos e gerar uma emoção em nós, fruto da nossa interação com a imagem. Aprendemos muito sobre nós, na observação do outro.

Cada fotografia tem um pouco da realidade fotografada e muito de mim.

O resultado de uma fotografia de céu noturno traduz muito do estado contemplativo a que me proponho no momento da captação.

Poder parar para contemplar o céu, a natureza ou mesmo pessoas, é algo incrível que devíamos todos procurar fazer.

O resultado da rotação da Terra, durante cerca de 1 hora e 30 minutos. Fotografia captada em Oliveira do Hospital durante a roadtrip (com Magnificent trees) com um céu bastante escuro, nas proximidades do Retiro do Tempo – Quinta em Terras da Serra da Estrela. Os rastos de estrelas (Star trails) são das constelações do Perseu, do Cocheiro e do Touro (entre outras), das quais obtemos os traços mais fortes: branco por cima da árvore esquerda-> Capella(Cocheiro); logo por cima os traços azulados-> constelação do Perseu; traços azuis por cima da árvore da direita-> Plêiades (Touro). As plêiades são um enxame estelar aberto com cerca de 200 estrelas das quais 7 se vêem sem ajuda ótica, em ambientes pouco poluídos.

 

Magnificent Skies e Magnificent Trees – Cristiano e Rute partilham a paixão pela fotografia e pela magnificência da natureza.

Conheci a Rute como formadora no primeiro curso de fotografia que fiz e somos amigos desde então. Eu ando já há alguns anos a desenvolver o trabalho em astrofotografia e muitas vezes falo sobre o problema da poluição luminosa. Por seu lado, a Rute tem este projeto incrível das árvores. Participar num projeto comum foi uma ideia da Rute: porque não aliarmo-nos para uma roadtrip para árvores e céus?

Cristiano Justino e o seu projeto Magnificent Skies – o direito à luz das estrelas.

O projeto Magnificent Skies visa a sensibilização para a defesa do céu noturno e o direito à luz das estrelas. Isto é, que possamos todos ter o céu escuro com muitas estrelas para ver.
Em termos pessoais é a satisfação de poder contribuir para que mais pessoas vejam o céu com outros olhos. Coletivamente, que a sociedade vá ficando desperta para os problemas da poluição luminosa que afeta, não só o ritmo biológico humano, mas todos os ecossistemas, como por exemplo as aves migratórias, entre outros.
Na verdade, a poluição luminosa é, de todas elas, a poluição mais fácil de resolver e com largos benefícios na poupança de energia e dinheiro. A iluminação exterior (pública e privada) tem níveis elevadíssimos na Europa, especialmente em Portugal, em que a maior parte da luz emitida por uma luminária é desperdício. O caminho passa pelas autarquias tomarem medidas para mitigar estes desperdícios e julgo que a regulamentação e recomendação de boas práticas terá de acontecer à semelhança do que já vai sendo feito noutros países.

Em Portugal, um bom exemplo está no Alentejo onde 10 municípios integram uma reserva de céu escuro com repercussões muito positivas no turismo.

Atualmente, cada vez menos pessoas têm a oportunidade de ver a Via Láctea, devido à poluição luminosa existente nos centros urbanos. Nas zonas menos afetadas por esta realidade existem condições mais favoráveis a terem o céu suficientemente escuro para vislumbrar a Via Láctea, como é o caso do Alentejo. Esta imagem foi captada no concelho de Reguengos de Monsaraz que integra a Reserva Dark Sky® Alqueva, onde é possível mergulhar na magia do infinito.

 

Um projeto artístico com preocupações ambientais. Rute e Cristiano, abraçam-no como uma missão, como um contributo para a conservação da natureza e uma chamada de atenção para os problemas da sustentabilidade ambiental.

 É um projeto de intervenção e de guerrilha.

Sob um céu estrelado com nível de poluição luminosa muito baixo, dois entusiastas da astrofotografia durante a captação de imagens da estrela Polar. Nesta fotografia podemos ver a Ursa Maior e, por cima, a cauda da constelação do Dragão. No canto superior esquerdo da fotografia as estrelas mais brilhantes são a constelação da Coroa Boreal e, logo por baixo, a constelação do Boieiro, em que a sua estrela mais brilhante Arcturo se encontra ainda escondida pelo monte situado na margem direita do Rio Zêzere.
Em jeito de desafio aos leitores: olhem para o céu, reparem na quantidade de estrelas que conseguem ver e comparem com as estrelas visíveis na fotografia.

 

Site: Cristiano Justino

Leia aqui a entrevista de Rute Violante

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