À conversa com Daniela Pais, designer e empresária

Gostamos de ver a simplicidade, versatilidade e originalidade das coleções de roupa de Daniela Pais. A este facto, acresce a marca encerrar em si mesma um conceito de sustentabilidade com o qual nos identificamos plenamente.

Pelo talento criativo e pela dimensão ambiental do projeto de Daniela Pais, queremos levar aos nossos leitores, um pouco mais sobre esta talentosa jovem mulher e a sua marca de moda sustentável, a Elementum, cujo conceito segue o lema:

Luxury is to have simple things!

Quem é a Daniela Pais? Fale um pouco de si e do seu percurso de vida que a levou a ser designer e empresária.

Olá! Sou licenciada em Arquitetura Design de Moda pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa e mais tarde fiz um Mestrado em Design Humanitário e Sustentável na Academia de Design de Eindhoven na Holanda.

Sempre fui muito ativa e gosto de iniciar e desenvolver projetos com todos os riscos e responsabilidades mas também com toda a liberdade que isso acarreta, talvez por isso me tenha tornado numa empresária.

Sempre me interessei pelas Artes e também pelas Humanidades. As minhas opções para entrar na faculdade foram Design Moda, Design, Escultura e Dança.

Sinto que na Elementum todos estes elementos/interesses estão presentes de uma forma ativa.

Criou a marca Elementum, pode-nos falar um pouco dela. Como e quando nasceu a marca?

A Elementum foi criada em 2008 a partir da minha tese de Mestrado – Clothing Species. Estive um ano a estudar os desperdícios que existem na produção e consumo de roupa. Decidi criar roupas que nos façam consumir menos em quantidade e mais em qualidade, pela sua durabilidade física e emocional, mas também que façam menos ou nenhum lixo/desperdício na sua produção.

Quando defendi a minha tese para além da investigação teórica, apresentei uma parte de pesquisa de campo e em termos de design, essas foram as primeiras peças da Elementum. Alguns destes modelos/ Designs ainda fazem hoje parte da coleção. Terminei a tese em 2007 e só em 2008 lancei a marca porque estive um ano para encontrar um produtor adequado.

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Pode-se afirmar que a sua marca de moda é sustentável em termos humanos e ambientais. Que estudos realizou para chegar ao conceito de sustentabilidade aplicado ao vestuário?

A base da Elementum é toda a investigação que fiz para a minha tese de Mestrado.

Comecei por questionar o aspeto do consumo e perceber até que ponto estamos a ser consumidos em vez de consumir. Olhei as questões da funcionalidade dos objetos mas também da relação emocional, isto foi feito através da leitura de outros autores  como Baudrillard e Girard, De Bottom, mas também de uma investigação prática com um pequeno grupo de pessoas. Entre outras coisas observei que mudamos mais frequentemente as peças de vestuário superiores, porque estão junto ao nosso rosto com que comunicamos e sentimos, por isso mais necessidade de mudança. Somos capazes de usar as mesmas calças vários dias mas um top não. Isso levou-me a focar sobretudo numa coleção de tops/peças superiores que funcionam como camadas de mudança.

Paralelamente investiguei o aspeto da produção e a oferta que existia de produção e consumo mais sustentável.

Outra parte da investigação foi o estudo da evolução do vestuário e a sua aplicação em diferentes culturas ainda hoje. Nas culturas onde a produção têxtil ainda está ligada ao manual e artesanal faz-se uma utilização/ consumo mais sustentável do vestuário, valoriza-se mais o tecido dando-lhe mais usos. Por exemplo na forma como em África ou na Índia utilizam a totalidade de uma peça de tecido/ Pano para fazer um Sarong ou uma Capulana. A Elementum apresenta novos arquétipos de roupa baseada nestes conceitos mas adaptada à nossa realidade contemporânea.

Qual a palavra-chave da marca Elementum? E o que significa?
E_photography_David Luxembourg

A coleção Elementum funciona como um elemento que foi pensado para se multiplicar e conjugar com outros elementos. Neste sentido a palavra chave é a multifuncionalidade mas aliada à simplicidade. Acreditamos que podemos fazer mais com menos! Cada um dos nossos tops ou vestidos pode ser usado de múltiplas formas.

A nossa frase é:  Luxury is to have simple things!.

Onde está sediada a Elementum? Alguma razão específica?  As peças que desenha são produzidas em Portugal ou noutro país? Qual a razão da sua escolha?

Foi criada nos Países Baixos em Eindhoven onde fiz o meu Mestrado e residi durante 11 anos. Em 2017 à espera do terceiro filho decidi regressar a Portugal. Como queria uma cidade mais calma, com mar e campo mas também com uma ligação a Arte e ao Design olhei para o mapa e escolhi as Caldas da Rainha.

Cerca de 80% da produção é feita em Portugal, da qual parte é feita no nosso estúdio outra é subcontratada na nossa região em Leiria. Os outros 20% ainda são produzidos nos Países Baixos (Holanda) porque trabalhamos há muitos anos com um tricotador específico para a produção de malhas retas. Como trabalhamos com fios muito delicados nomeadamente de Alpaca temos de garantir a qualidade.

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Que tipo de materiais utiliza?

Gostamos sobretudo das fibras naturais como o Algodão Orgânico, o Linho, a Alpaca, e o Merino, mas também usamos outras fibras sustentáveis como o Lyocell, Tencel ou o Cupro. Temos uma parte de malhas jersey que se pode usar todo o ano, uma parte nova da coleção que são camisas e calças em tecido, e depois os nossos warm hearted tricot para nos aquecer..

As coleções estão disponíveis para mulheres, crianças e homens e para todas as estações do ano?

Em termos de coleções sempre funcionamos de uma forma orgânica em continuo.

Estamos em constante desenvolvimento e pesquisa em termos de design e por isso as coleções são intemporais.

Isso reflete-se nas fibras que escolhemos mas também nas cores que propomos.

Queremos que os nossos clientes usem as suas peças ao máximo e que estas tenham uma longa vida útil.

Por outro lado as alterações climáticas já não justificam a divisão das coleções pelas tradicionais estações do ano.

No passado também apresentamos coleções de Criança e Homem, neste momento estamos mais focados no vestuário feminino embora muitas das nossas peças sejam genderless.

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Quem são as pessoas que compram a sua roupa? São fundamentalmente jovens?

Não, pelo contrário. Não tem propriamente a ver com a idade mas sim com maturidade.

As pessoas que compram Elementum, têm uma certa maturidade para experimentar e se expressar de uma forma consciente em termos estéticos e éticos.

A indústria fast fashion (moda rápida) leva as pessoas a ter um comportamento consumista. É uma pessoa empenhada e preocupada com a sustentabilidade ambiental. Que conselhos daria às pessoas no sentido de contrariar esta “moda”, mas ainda assim a manterem-se “in” e seguir as “tendências”?

Atualmente existem muitas alternativas mas o “terreno” da sustentabilidade é muito complexo e está em constante mudança. Aquilo que é sustentável hoje num determinado contexto, pode não o ser amanhã ou ainda hoje, mas noutro contexto!

Por isso o meu conselho: parar e repensar as nossas verdadeiras necessidades, depois avaliar o contexto dos produtos/serviços que podem responder a essas necessidades.

Comprar menos peças de roupa mas usar mais cada peça de roupa. Fazer mais com menos! Ter menos também nos liberta, da-nos mais espaço para aquilo que verdadeiramente importa, experienciar, viver!

Porque se pode fazer e experienciar tanto com cada Elementum sempre vi a Elementum como um espaço para a liberdade/ individualidade.

As suas peças multifunções estão presentes no mundo da moda nacional e internacional. Que tipo de feiras dá preferência para apresentar a sua marca com as suas coleções?

Desde 2008 que apresento a coleção Elementum durante a semana da moda em Berlin, em Feiras profissionais de Moda/Trade shows ligados a sustentabilidade. Já estivemos em feiras mais generalistas como a WHos next em Paris, mas damos preferência às feiras de moda sustentável.

A indústria têxtil é a segunda mais poluente a seguir à petrolífera. Por considerar importante ter um papel ativo na sociedade respondeu com a criação da marca Elementum. O que pode sugerir a todos nós, para termos igualmente uma participação ativa e seguir o exemplo?

Todos temos um papel fundamental enquanto consumidores, seja de produtos ou serviços, cada compra que fazemos por mais pequena que seja tem um impacto.

Devemos pensar nesse impacto e escolher, de acordo com as nossa necessidades, as opções com um impacto mais positivo.

É importante fazer o exercício de nos reinventarmos, dar novos usos e utilizações às roupas que já temos, usar ao máximo cada peça que temos e aproveitar cada momento de uma forma consciente. 

 

site: https://elementum.store/

Facebook: https://www.facebook.com/ElementumbyDanielaPais/

Instagram: https://www.instagram.com/elementumbydanielapais/

Pintrest: https://www.pinterest.pt/danielapais/?autologin=true

 

“Daniela Pais é Arquitecta Designer de Moda. Em 2002, recebeu o Prémio Nacional de Design com o projecto La.Ga da Krv Kurva. Criou a marca de moda sustentável Elementum, em 2008 depois de terminar o Mestrado na Design Academy Eindhoven. Nos últimos anos, leccionou Design Social na Willem de Kooning Academy em Roterdão. Actualmente Daniela reside em Portugal onde representa a Trend Union de Lidewij Edelkoort.  Elementum questiona os princípios fundamentais por detrás da moda e da identidade, tem como objectivo reduzir o desperdício dos ciclos de produção e consumo de moda. Fundado por Daniela Pais e colaborando com Yoád David Luxembourg, o estúdio está focado no desenvolvimento sustentável da indústria local, artesanato e escolas. Desde 2017 Elementum está sediada em Portugal.”

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