À conversa com Rosa Bela Cruz, artista plástica

Bela Rosa Cruz artista plástica
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Rosa Bela Cruz é uma artista plástica licenciada em Artes Plásticas pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) atual Faculdade de Belas Artes. Na criação dos seus trabalhos utiliza vários materiais e técnicas mistas, explora diferentes interpretações da figura humana, com especial destaque para o universo feminino.

Talvez eu, Rosa Bela Cruz
Título: Talvez eu

 

Nesta conversa com Rosa Bela Cruz, tivemos oportunidade de conhecer a sua visão do ser humano e as questões sociais que a inquietam.

A importância da mulher na sociedade tem sido tão desvalorizada e menosprezada ao longo dos tempos que, apesar de se verificarem alguns avanços, ainda há muito a percorrer para se efetivar uma igualdade de direitos e deveres entre os homens e as mulheres. Mas, na minha obra, apesar de em alguns dos meus quadros estarem representadas mulheres que sofrem, mulheres que viram os seus direitos limitados, as suas vidas cortadas, em outros quadros represento mulheres de atitude positiva, dignas, livres, seguras do seu papel de partilha no mundo lado a lado com os homens. É com estas mulheres que mais me identifico neste momento!”

Nostalgia, Rosa Bela Cruz
Título: Nostalgia
Fale-nos um pouco de si, do seu percurso e de como surgiu o gosto e a vontade de se dedicar às artes plásticas?

Desde muito nova senti, naturalmente, uma vontade, uma quase necessidade de desenhar, de riscar… então, passava parte dos meus dias a rabiscar, a fazer desenhos de paisagens e de pessoas. Já então as pessoas me interessavam! Mais tarde, canalizei os meus interesses plásticos para o mundo da Mulher. Quando terminei o ensino secundário, penso que, não tive dúvidas de que o que eu queria seguir era o Curso de Artes Plásticas que frequentei e concluí na ESBAP, atual Faculdade de Belas Artes do Porto.

 

“Como artista plástica e Mulher nesta sociedade, neste mundo português”, como é que Rosa Bela olha o estado da cultura em Portugal, em particular no que se refere às artes plásticas?

Todos sabemos como a cultura em Portugal é tratada. É o parente pobre do Orçamente do Estado! Os 0,25% destinados à cultura deviam de envergonhar qualquer governo! Também sabemos que não é só o dinheiro que importa, mas “sem ovos, não se fazem omeletes”!… Como exemplo, posso acrescentar quão importante seria investir em projetos culturais descentralizados das grandes cidades, apostar e incentivar muito mais as crianças logo desde o infantário, nas diferentes expressões, nas destrezas e capacidades individuais de cada uma.

As artes plásticas necessitam também de uma maior aposta na divulgação dos artistas e iniciativas junto da população em geral. Apesar de atualmente várias autarquias promoverem, com alguma assiduidade, exposições e outros eventos artísticos, penso que os artistas ainda se sentem bastante isolados e com pouco apoio na divulgação e promoção do seu trabalho.

Tudo isto sai ainda mais prejudicado quando constatamos que o espaço destinado à cultura  pelos jornais ou televisões – com a honrosa exceção da RTP 2 – é cada vez mais escasso, com óbvios reflexos negativos na divulgação do que vai sendo feito pelos diferentes agentes culturais nas mais diversas áreas.

Todos lucraríamos muito mais com uma sociedade culturalmente mais esclarecida e interventiva.

Como é que cumpre o processo entre a criação das suas obras até ao momento em que as expõe ao olhar crítico do público?

No meu caso, o processo criativo é uma luta comigo mesma! Tem várias fases: a fase da conceção (esboços, desenhos, seleção de cores e materiais). Curiosamente, esta fase é, para mim, mais pacífica uma vez que, após pensar o tema que quero explorar, concebo com relativa facilidade os esboços que dão o mote para desenvolver a obra. Mas vem logo a seguir a fase da execução (tratamento da tela ou outro suporte, colagens, pintura, stencil, etc). No meu caso esta é a fase em que eu sofro mais até encontrar a solução que considero melhor, mais adequada ao que idealizo.  Só então dou por terminado o trabalho. Com alguns quadros necessito, até, de me afastar deles algum tempo, regressando depois com soluções que entretanto no meu íntimo foram despontando.

É na representação do feminino que reside a principal expressão da sua obra. Para si, enquanto mulher é uma experiência intensa?

Ao escolher a Mulher como tema central do meu trabalho, eu estou a tomar uma opção consciente de mensagens que quero fazer passar. Claro que tudo isto resulta do meu sentir, da minha perceção e da minha observação do papel da mulher na sociedade e no mundo. A importância da mulher na sociedade tem sido tão desvalorizada e menosprezada ao longo dos tempos que, apesar de se verificarem alguns avanços, ainda há muito a percorrer para se efetivar uma igualdade de direitos e deveres entre os homens e as mulheres. Mas, na minha obra, apesar de em alguns dos meus quadros estarem representadas mulheres que sofrem, mulheres que viram os seus direitos limitados, as suas vidas cortadas, em outros quadros represento mulheres de atitude positiva, dignas, livres, seguras do seu papel de partilha no mundo lado a lado com os homens. É com estas mulheres que mais me identifico neste momento! Oxalá o futuro nos possibilite ter mais mulheres assim!

Tem um trabalho centrado, ao nível técnico, na experiência de vários materiais e técnicas mistas com destaque para as colagens e texturas gráficas. Qual a fonte de inspiração?

Todos sofremos influências do que observámos e vivenciámos. Assim, não rejeito a influência de várias correntes artísticas que incluíram colagens nas suas diferentes expressividades, tais como o Cubismo, o Dadaísmo ou a Pop Arte, no entanto, há dois grandes artistas cujas obras me dizem muito. O multifacetado artista inglês David Hockney, e a artista catalã Lita Cabellut. Tenho seguido os seus trabalhos ao longo dos anos, tenho visitado as suas exposições e, quanto a mim, são artistas maiores.

Esse Olhar, desenho a grafite
Título: Esse Olhar
O que sente quando cria uma obra?

Se se está a referir ao que sinto quando dou por concluída uma obra, posso dizer que sinto um grande alívio pelo final da luta entre mim, o meu pensamento, e o trabalho realizado. Mas, sinto também um certo vazio que se volta a restaurar quando der início a um novo trabalho.

Que outros interesses ou ocupações para além do trabalho artístico tem?

Fui professora de Artes Visuais no ensino secundário durante muito tempo e agora dou aulas numa Universidade Sénior, ocupações  gratificantes. Para além disso, gosto muito de cinema, de ler e de viajar. As viagens e o contacto com outras culturas e realidades, são um enorme enriquecimento pessoal.

O conceito de beleza varia de pessoa para pessoa. Como definiria essa palavra?

O conceito de beleza está estritamente ligado à experiência de vida de cada pessoa. Aquilo que viu, os conhecimentos que adquiriu, a sensibilidade de captar e julgar aquilo que o rodeia, são fatores que influem na escolha daquilo que é beleza para cada um. Lamento, mas eu não consigo definir o meu conceito de belo. Posso encontrar beleza em pequenas coisas, depende também do meu estado de espírito no momento.

Como se analisa a qualidade de uma obra de arte? Quais os critérios usados para estipular o valor de uma obra?

Apesar de não ser crítica de arte vou tentar dar uma resposta a esta questão. Considero que, há fatores objetivos e fatores subjetivos que interferem na análise e no valor de uma obra. Paralelamente à análise daquilo que é objetivo (utilização adequada da técnica e materiais, mensagem ou conceito artístico) há uma apreciação de toda a obra do artista que vai intervir na sua cotação no mercado das artes. Depois, e isto é sabido por quem circula ou vive no mundo das artes plásticas, o valor de uma obra é sempre subjetivo e, no limite, um quadro, uma escultura, valem aquilo que alguém esteja disposto a pagar por elas. Só assim se explicam as somas absolutamente astronómicas pagas em leilões internacionais por obras de Leonardo da Vinci, Paul Gaugin, Cèzanne, Picasso e outros. Vivemos um tempo e uma fase em que muitas vezes, o valor do quadro é, antes de mais, o resultado do potencial de investimento/rentabilidade nele detetado por grupos financeiros e grandes investidores.

Qual a mensagem que gostaria de deixar para os amantes de arte e nossos leitores?

A mensagem a deixar para os amantes de arte, vossos leitores, só pode ser uma: Como dizia José Saramago “Se podes olhar vê, se podes ver, repara”!

O meu apelo é para que não nos basta olhar para o que nos rodeia, se daí não resulta a capacidade de ver mais fundo, de reparar num mundo complexo, difícil, por onde se espalham conflitos bélicos, políticos, ecológicos, ou a perda de valores e de sentimentos. As artes podem e devem também “falar” disto. Mas a Arte pode também salvar-nos…

O olhar que vê
Título: O olhar que vê
A Rosa Bela apresentou várias exposições individuais. Como foram essas experiências?

Todas as exposições individuais ou coletivas que realizei, foram excelentes experiências, não só porque me proporcionaram a divulgação do meu trabalho, mas essencialmente pelas reações obtidas.

Talvez Medusa
Título: Talvez Medusa
Há alguma exposição que recomenda – A não perder?

No Porto, onde vivo, sugiro a visita à exposição Desenhos de Mestres Europeus, até 31/12/2021, no Museu Nacional Soares dos Reis, também até ao dia 31/12/2021 poderá visitar a Exposição Coletiva dos Sócios da Cooperativa Artística Árvore, na Fundação Manuel António da Mota, onde também participo. Sem esquecer também as exposições patentes no Museu de Arte Contemporânea de Serralves e na Casa de Serralves, com destaque para as obras de Joan Miró, até 6/03/2022.

Rosa Bela Cruz fique à vontade para falar o que quiser. Este espaço é seu.

Aproveito para vos agradecer o tão simpático convite para esta entrevista e poder falar um pouco da minha obra e de mim. É muito bom haver quem continue a insistir em divulgar a cultura nas suas mais diversas expressões.

A todos, muito obrigada pelo vosso tempo, e só desejo que continuem a fruir a vida com mais cultura e, neste caso específico, com muita Arte!

 

Poema
Título: Poema

 

Rosa Bela Cruz, muito obrigada pela sua disponibilidade de partilha desta sua entrevista, que esperamos seja inspiradora para quem nos lê. Nós ficámos fascinadas com as suas obras!

A Pomba
Título: A Pomba

 

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