À conversa com André ViaMonte… Musicoterapeuta

Eis a tão esperada sexta-feira

Mais uma semana passada! Eis chegada a sexta-feira tão esperada. Prontíssima para ir até ao “lar do repouso” descansar naquele magnífico sofá com chaise longue.

A filha chegaria nesse mesmo dia a Lisboa vinda do Algarve para assistir a um concerto do André ViaMonte, a ter lugar na Fábrica Braço de Prata. Convite efetuado por dois amigos, tia e sobrinho que apreciam muito este músico. Não fui, mas arrependi-me e bem, quando ela o descreveu como um músico de voz poderosa e profunda, quente e doce, indescritível, a não perder. “Canta com alma e coração e interpreta com todas as emoções à flor da pele, os sentimentos são visíveis quer na sua expressão facial quer na corporal … mas tens de ouvir pessoalmente Mãe, é um concerto extremamente emotivo.” – Afirmou a minha filha no dia seguinte ao mostrar-me os vídeos que produziu deste músico, cantor, autor e compositor.

Dar voz ao músico André ViaMonte

Fomos procurar conhecer a sua história de vida através das redes sociais. Vamos crescer partilhando! Acreditamos que é possível crescer em conjunto e com a partilha de conhecimento. Assim, pedimos ao André um pouco do seu tempo partilhando a sua experiência de vida, respondendo às perguntas que a seguir apresentamos.

Aqui fica a palavra escrita, leia e sinta a música a vibrar dentro de si!

Diz-nos o autor que:

“… é preciso OUVIR quem TOCA e quem CANTA connosco. Só esta simples partilha exercita a escuta, o respeito, a tolerância e melhor compreensão do mundo ao redor.”

 

Como se quer apresentar aos nossos seguidores?

Normalmente prefiro que seja a minha música por si a apresentar-se, mas se se refere apenas ao nome, então será “ViaMonte”.

Qual a sua formação musical?

Sou quase Autodidata. Tive formação de técnica vocal em colocação e registos étnicos, mas a nível musical fui sempre experimentando instrumentos, sendo a minha voz o meu instrumento guia principal de composição.

Sempre soube que queria abraçar esta área ou foi crescendo à medida do seu crescimento pessoal? Com que idade descobriu o gosto pela música e pelo canto?

Desde muito cedo havia uma “queda” para as artes performativas. No entanto, nunca pensei em seguir mesmo a área. Nos momentos mais críticos da minha adolescência entre os 12, 13 anos, lembro-me que me refugiei na música e no canto como um lugar de segurança.

Cantava e compunha melodias vocais para mim próprio… “embalava-me” e tentava ultrapassar momentos menos bons tomando conta de mim. Era uma forma intuitiva, criativa e inocente de me manter são e de falar comigo em momentos de maior ansiedade ou angústia.

O André é filho de emigrantes. Tendo nascido fora de Portugal foi aqui que sentiu ser a sua “casa” para lançar a sua carreira?

Nasci em Zurique, Suíça. Cresci entre Zurique e Singen, Alemanha e Vila Real, Portugal.

Acabei por ficar em Portugal definitivamente pelos 8 anos mas estive sempre entre os 3 países.

Entretanto acabei por me formar em Lisboa acabando por lançar a minha carreira cá… Porque  fez sentido, por aqui. Por outro lado, existe um sentimento de pertença, quase como uma continuidade da missão dos meus pais que voltaram (após tantos anos de trabalho) “de vez” para Portugal.

Sair, emigrar e lançar a minha carreira no estrangeiro seria uma forma de afirmar que todo o esforço que eles tiveram foi em vão. Fazê-lo cá em Portugal é mais do que uma afirmação familiar, é uma confirmação de que toda a dedicação, trabalho e esforço que deram aos seus filhos valeu a pena! Estará refletido na continuidade do seu legado cá!

Quais as suas influências musicais? Tem algum músico/compositor que admira e que o inspira?

Tenho vários… e são todos muito diferentes. Tanto posso gostar de Arca, Rammstein, Dream Theater, Opeth, Ludovico Eunaudi,  como Johnny Cash, Queen, Supertramp, Madredeus, Amália Rodrigues, Shirley Bassey, Bach, Beethoven, Peter Gabriel, Laurie Anderson… entre outros.

Para mim as obras em si são o mais importante, daí ser muito eclético tal como a minha música. Poderei gostar de uma só obra de um artista como poderei gostar de várias mas a minha referência será sempre cada obra.

Com que idade começou a compor os seus próprios temas? Quantas músicas escritas e gravadas até ao presente?

Comecei a compor aos 5, 6 anos melodias vocais. Tinha uma tendência de imitar animais e muitas das vezes cantá-los em peças de orquestra (risos).

Poderei dizer 27… ideias e composições guardadas perdi a conta.

Algures na sua aventura como músico, terá chegado aquele momento em que pensou no que queria fazer ou quem queria ser como músico. Como e quando percebeu que queria seguir uma carreira na música e fazer disso vida?

Hoje percebo o porquê da minha confusão quanto à minha identidade musical! Sendo alguém demasiado eclético e tendo as obras como referências e não os artistas em si, para mim seria difícil criar um perfil artístico e segui-lo. Tentei na realidade várias vezes com a ajuda de outros na parte de produção e composição, mas acabei por falhar porque sentia que não era a minha verdade. E quando não se tem a certeza do que fazer?! Simplesmente, não se faz… (risos)

A Musicoterapia ajudou-me a reencontrar a minha posição na música enquanto artista e compositor.

Percebi-o durante o estágio da minha tese de mestrado, o canto, a composição, como forma de partilha e pertença. A experiência que obtive durante os processos com que trabalhei foram de tal forma inspiracionais que me devolveram a segurança, a verdade enquanto artista e compositor. Em 2014 tive força suficiente para fazer algo que nunca tinha feito, criar um álbum inteiro, onde a missão do mesmo seria devolver à comunidade o sentimento mais primordial de todos o ”ser-se humano”.

Onde se inspira para escrever e compor para cantar as suas próprias músicas? Sente que de alguma forma é mais fácil para si dar voz aos seus sentimentos sendo cantor compositor?

Inspiro-me em vidas, na minha e na de muitos que por ela passam. Para mim enquanto compositor terei que ser portador de uma mensagem de verdade, que faça sentido a alguém e que nutra ou crie mobilidade emocional.

Só se faz se for verdade. Acredito que na raíz de qualquer composição, terá que existir uma verdade que poderá ser difusa a nível de letra, dando diversas leituras para que possa chegar a várias “verdades”… Contudo, a magia acontece nas melodias que elevam e que criam uma atmosfera de libertação para quem as ouve.

Já alguma vez se questionou – A minha música é tão boa quanto poderia ser? Ou essa questão nunca se coloca pois só compõe e edita o que gosta?

Eu vejo as minhas músicas como criações ou seja como “filhos”.

Nascem, crescem, aceito-os como são e mesmo com os seus “defeitos” tornar-se-ão sempre diferentes, interessantes e mais autênticos.

Na verdade, a minha forma de organizar as composições quer no álbum Via quer no próximo, seguem uma linha de uma vida de um ser onde cada tema retrata uma fase de vida: Arrival (Vinda); Eternal Return (Reencarnação); To the World (Nascimento); Heaven’s Day (Infância), Heartland (Família, Mãe e Pai)… até ao amadurecimento, morte e partida.

Os meus temas muitas das vezes têm registos diferentes e isso deve-se ao facto de retratarem fases diferentes de uma vida.

Qual o tipo de música que mais ouve e que o deixa entusiasmado ou o faz sentir-se vivo?

Música de fusão. Música Erudita com música urbana. Instrumentos tradicionais com orquestras clássicas, fico extremamente comovido quando se partilha a música pelo que é e não pela vaidade de estatutos ou de currículos.

Qual a fonte de inspiração para o seu primeiro álbum de estreia Via? Quais os temas abordados? Qual o tema principal do álbum Via?

V I d A. Vida é a fonte de inspiração do álbum VIA.

No entanto as temáticas abordadas são a dor, luto, mágoa, amor incondicional, aceitação, reencontros, criança interior, tristeza convertida em resolução, em mobilidade emocional, catarse, libertação.

No seu álbum Via convidou alguns artistas para participar. Qual o motivo e a razão da escolha destes e não de outros?

Pelo caminho vamo-nos cruzando com pessoas interessantes. Todos as participações especiais acabam por estar intimamente ligadas com os temas e com a mensagem que os mesmos defendem. Mas sobretudo poderei dizer o que me leva a escolher alguém é pela sua história, talento e  verdade. Apesar de estarmos orientados para uma escolha determinada parece que muitas das vezes as obras têm um caminho a seguir, têm vida própria e sabem o que pretendem ou quem querem. Poderia querer alguém pelo seu mediatismo… mas mais rapidamente tropeço em alguém menos mediático,  com o mesmo (ou mais) talento e com uma verdade maior.

Qual o público-alvo para ouvir a sua música? Considera o álbum Via particularmente dirigido a um público feminino, pela carga emocional que trata?

Público melómano, genuíno e emotivo. Não é dirigido a um público específico, às vezes parece que é a música que escolhe o público, não consigo explicar de outra forma.

Uma das curiosidades, é a disparidade de idades entre o público: tanto poderá encontrar crianças de 10, 12 anos, como adolescentes, como famílias e adultos.

O álbum Via foi considerado um dos 10 melhores álbuns de 2016. Como reagiu a este “prémio”?

Muito contente. Pensei logo de seguida como irei “descalçar esta bota”!

Se o primeiro, está entre os 10 melhores álbuns nacionais, com o próximo o álbum terei que ganhar um Grammy! É muita pressão (risos).

Mas foi muito bom o reconhecimento!

Sabemos que está para breve o lançamento do seu segundo álbum. Pode-nos falar um pouco deste novo álbum?

Ainda está por nascer e já tem muito por contar… Foi finalizado nos estúdios Abbey Road Studios, em Londres, com Alex Wharton, responsável por trabalhos de músicos emblemáticos do panorama mundial como: Paul McCartney, The Pixies, Gilberto Gil, St. Germain, Radiohead, Massive Attack, Coldplay, entre outros.

MONTE, é um álbum com o mesmo número de faixas (14 ) que o álbum anterior. No entanto, apesar de seguir uma linha fiel ao antigo trabalho que juntava instrumentos tradicionais com eruditos, o álbum MONTE reinventa-se por se enquadrar com outras linhas do contemporâneo, onde instrumentos eruditos se fundem com máquinas.

Após uma viagem interior com o meu álbum de estreia, VIA, íntimo, intuitivo, e de ter cumprido o seu papel intimista de mobilidade emocional, de comoção e de resgate de emoções, o novo trabalho MONTE.

É muito mais virado para o mundo, cognitivo, consciente, lógico e com um perfil internacional, com o intuito de surpreender e de alertar para determinadas temáticas do mundo: injustiça, igualdade, memória, legado, conhecimento versus ignorância.

Especializou-se em musicoterapia, assim sendo vê a música como uma missão. Pode-nos falar um pouco desse seu propósito? E explicar esses processos terapêuticos? São as suas experiências como musicoterapeuta que o inspiram para compor?

Mestrado em Musicoterapia. A minha Formação na área de reabilitação leva-me a ver a música como um bem maior de ajuda mas também de mensagens de intervenção, de mudança.

No álbum Via muitos dos temas foram inspirados em processos terapêuticos reais, onde uni a minha experiência de vida, criando obra e união pela dor e tristeza.

A música é importante no desenvolvimento pessoal que começa em bebé. Haverá algum conjunto de temas musicais aconselhados para serem ouvidos entre pais e filhos que possam gerar sentimentos de partilha, tolerância e respeito no desenvolvimento relacional?

A música é de facto algo único demasiado profundo para ser usado só para entretenimento.

Na musicoterapia existem técnicas que poderão ser activas, recetivas ou mistas e as aplicações são imensas.

No entanto o que eu aconselho é algo mais simples…

Cantem juntos! Façam música juntos… partilhem um momento rítmico.

Não importa a qualidade da execução ou da performance, o que importa é a qualidade do momento em si a nível de intenção.

Existe partilha, troca de informação através de uma linguagem universal na base de emoção onde simplesmente é preciso OUVIR quem TOCA e quem CANTA connosco. Só esta simples partilha exercita a escuta, o respeito, a tolerância e melhor compreensão do mundo ao redor.

Obrigada ViaMonte! Aguardamos pelo novo sucesso – o Álbum Monte!
André ViaMonte

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