À conversa com GIZELA N – A arte no feminino

Gizela N

GIZELA N  –  encontrei nesta abreviatura de nome, o meu nome artístico que me identifica. “N” de Nogueira, “N” de “n” coisas que faço. “Gizela N” por necessidade de ser “simples”.

 

Conheça melhor Gizela N, a mulher e a artista que, até dia  dia 1 de março 2020, expõe as suas obras – “Caminhos de Silêncio” -, no Cais 16 – Craft Gallery, na Rua Afonso Sanches, 16 em Cascais.

Obra de Gizela N

Quem é a Gizela Nogueira de Almeida e como se descreve no papel de mulher na arte?

Gizela Nogueira de Almeida passou a ser na arte, a Gizela N. Penso que sempre tive alguns problemas de identidade, devido ao meu vastíssimo leque de interesses e versatilidade em fazer inúmeras coisas, a que agora prefiro chamar de “diversidade” com um sorriso. Portanto encontrei nesta abreviatura de nome, o meu nome artístico que me identifica. “N” de Nogueira, “N” de “n” coisas que faço. “Gizela N” por necessidade de ser “simples”.

Como mulher na arte ainda não estou muito clarificada. Nunca me considerei muito feminina, talvez por ter nascido num seio familiar muito masculino.

Apesar de a minha mãe me encher de bonecas, certo é que preferia outras brincadeiras mais manuais e físicas, talvez por também não ter ninguém com quem brincar “às bonecas”. Preferia a pista de carros do meu primo (lol). Até com as minhas filhas, nunca soube brincar muito bem “às bonecas”. Mas tenho percebido que na generalidade as pessoas até me acham feminina e principalmente acham que a minha arte é muito feminina. Talvez pelas cores, uso muito o dourado e o encarnado, talvez pelos materiais, uso sempre o fio de lã, meu cordão umbilical desde sempre. Talvez esse lado seja o meu lado feminino, das lãs da  minha avó e dos tecidos da minha mãe.

Penso que o conceito feminino está também nos temas e nos sentimentos que encerram as minhas obras. Apesar de eu ser muito sensível à beleza (o que quer que isso seja para cada um), as minhas obras não encerram apenas um conceito estético, decorativo. Há sempre muito significado por trás, muitas histórias para contar. Há muita intensidade, por vezes difícil de descodificar sem explicação. Não sei se é bom, pelo menos não é tão vendável, mas é o que sou.

 
Ainda sobre o papel da mulher na arte, fui convidada a levar a minha exposição “A Trama” para o Algarve, precisamente por ter tocado no lado feminino da “curadora” Sara Brito, do Arquivo Histórico António Rosa Mendes em Vila Real de S.to António. A exposição teve inclusive cânticos de mulheres a cantar ao som de tambores. Foi comovente, e passou a chamar-se “A Trama, o fio vermelho que nos une”, dedicado às mulheres.

 

A criatividade existe em si, mas para aperfeiçoar a sua concretização sentiu necessidade de ter formação. Tanto quanto sabemos é formada em Design de interiores e em escultura. Como é desenvolver estas duas vertentes artísticas, interliga-las e tornar os espaços contemporâneos e apelativos?

Eu tirei o curso de “Design de Interiores” no Iade, e o curso de “Escultura” na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Foram dois cursos muito intensos e muito diferentes, o que me causou uma visão ainda mais versátil sobre a vida e sobre mim. Gostei de ambos e entreguei-me a ambos sem saber muito bem o que iria acontecer.

Dizia muitas vezes naquela época “O Design vai permitir-me “sobreviver” (financeiramente claro) e a Arte/Escultura vai permitir-me “viver” na minha plenitude e veracidade”. E olhando para trás, penso que foi precisamente o que aconteceu.

 

Obra 2 de Gizela NAinda passei por outros percursos pelo caminho, mas o Design de Interiores permitiu-me ter clientes, permitiu-me ser um pouco “psicóloga” e empática com os clientes de forma a dar-lhes a qualidade de vida que penso que todos merecem para se sentirem finalmente confortáveis em sua casa/espaços. E sempre defendi, que apesar de colocar sempre a minha arte, criatividade e audácia (como muitos me identificam), a assinatura não era só minha, era sempre uma co-assinatura com o cliente. A casa/ o comércio/ o que fosse, era para quem nos contratava, era para os clientes sentirem a sua personalidade bem tratada e bem espelhada no seu próprio espaço. No entanto, a minha vertente artística sobressaía, nem que fosse pelas ideias mais criativas, pela abertura de espirito ao “diferente” e pelo entusiasmo com que conseguia levar os clientes a aceitarem certas “audácias”. Nunca se arrependeram, e isso deixa-me muito feliz e realizada nessa área. Quando tirei a pós-graduação em Barcelona de “Arquitetura efémera e montagem de cenários”, pensei que esse curso é que iria fazer a verdadeira ponte entre o design de Interiores e a Escultura, e que iria trabalhar nesse mundo artístico, mais terreno, mais livre e mais efémero. Não foi o que aconteceu, mas a liberdade de expressão com que vivi esse curso, a abertura à vida que tive em Barcelona em 1997/98 (antes da Expo 98 em Lisboa), mudou a minha vida para sempre. Lisboa/Portugal estava a anos luz do que é agora e são essas experiências que nos transformam e nos fazem crescer como seres humanos. Estou grata à vida e aos meus pais por me terem permitido viver essa audácia há tantos anos atrás.

 

Como começou o seu interesse ou gosto pela arte? Em que momento sentiu necessidade de se expressar como artista plástica?

Acho que desde que nasci. O que mais gostava de brincar era de “fazer” coisas, tocar, pintar, imaginar, escrever também. A minha mãe e a minha família sempre foram muito criativas.

Cresci a ver o meu avô a fazer tudo, a arranjar tudo, desde mecanismos eletrónicos até a colocar borracha de pneus para fazer de sola de sapatos, pois iriam durar “eternamente”.

Esse episódio guardo para mim, como algo tão inteligente como divertido, algo tão surpreendente, algo que nunca me teria passado pela cabeça (lol). De como me ensinou a revelar fotografias a preto e branco numa casa de banho com luz vermelha, e a transformar miolo de pão em borracha para poder apagar os enganos dos meus desenhos…. e isto é uma gota no oceano.

A minha mãe sempre pintou, costurou, ensinou-me a pirogravar…eu não conhecia ninguém que soubesse fazer tudo isto. Para mim, todos eram uns “mágicos” que me fascinavam…

 

 

Qual foi o seu primeiro contacto com as artes? Qual a importância da arte no design de interiores?

O meu primeiro contacto com as artes já está respondido, desde que nasci :-). Mas a decisão de ser a “Escultura” a arte eleita, de uma forma séria e visceral foi precisamente no 10ºano. Aí decidi, aí tive a certeza que esse seria o MEU caminho.

Tive um professor escultor e que apesar do seu mau feitio, era mais um mágico na minha vida. Sabia fazer tudo, e ensinava-nos como se já estivéssemos na Faculdade de Belas Artes. Todas as técnicas, era do tipo “mãos-à-obra”, era “a matéria”. AÍ o meu mundo artístico expandiu-se significativamente.

 

 

Pode explicar um pouco em que consiste o seu projeto “In:fusão, Interiores, Arte e Objetos Integrados”

Para conseguir aliar a Arte ao Design de Interiores juntei-me a um dos meus irmãos (acabado de vir de Macau cheio de ideias) e duas amigas arquitetas, e abrimos o espaço In:fusão, interiores, arte e objetos integrados. Éramos uma equipa de criativos com inúmeras valências e experiências de vida. Desejávamos ter um “centro”, um “espaço” onde se pudesse integrar uma galeria de arte, misturada com peças de design de autor, de joalharia de autor, etc Tínhamos parcerias com inúmeros criativos de todas as áreas, e também com o centro português de serigrafia, ou seja, um mundo de criatividade para integrar nos interiores dos inúmeros clientes que procuravam as nossas colegas arquitetas para preencherem as suas casas.
Por isso, éramos In, de Interiores, de Intímo e de Inovação. Éramos uma Fusão de tudo isso em prol da qualidade de vida de cada cliente que nos procurava e que conseguia connosco integrar tudo. Desenhávamos mobiliário à medida para cada espaço, fazíamos os projetos de interiores e decoração, tudo personalizado.
Consegui vender as minhas esulturas e pinturas, e de muitos colegas meus. Foi uma época fantástica. Aos poucos ficámos com cada vez mais trabalho a nível de interiores e fui deixando de ter tanto tempo para a Arte, no conceito puro. Desenvolvemos muitos conceitos/espaços, residenciais, comerciais e até vitrinismo e participámos em feiras, na Casa Décor, tendo sido uma experiência interessantíssima. Muitas viagens, muitos clientes internacionais com culturas estéticas muito diferentes. Foi muito bom!

Agora, sinto que chegou o tempo de inverter os papéis e a Arte estar em primeiro lugar na minha vida. Quero mais SER do que TER. Mas, com sustentabilidade, responsabilidade e os pés no chão. Quando se tem uma família com três filhas, tem que se pensar constantemente na viabilidade de qualquer opção que se faça na vida. Aí, a compreensão e apoio do meu marido e delas, é fundamental.

 

Leia a entrevista a Gizela N – CAMINHOS DE SILÊNCIO e outras exposições

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