À conversa com Luís Vicente, a Nimba Art Gallery

Luís Vicente e a sua “obra-projeto”, sobre e a partir da arte e da cultura

Luís Vicente é um homem dinâmico. Apaixonado pela arte, meteu mãos à obra e criou, com sucesso, um projeto a “Nimba Art Gallery”, através do qual procura dar relevo a artistas talentosos ao mesmo tempo que, sendo também editor, contribui fortemente para a promoção da cultura.

Sou um homem de projetos, comecei no plano local, conheço muito bem esta realidade.

É através das exposições que realiza, que promove os artistas, levando mais longe as suas obras, dando-lhes a notoriedade que reconhece merecerem. Numa conversa informal, durante uma visita à exposição “Distorções” de Nuno Confraria, na Nimba Art Gallery, Luís Vicente dá-nos a conhecer a essência deste projeto e da atividade de curadoria.

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Da ideia à concretização da Nimba Art Gallery
Nimba art Gallery de Luís Vicente
Nimba art Gallery

A ideia do projeto “Nimba Art Gallery” surgiu na sequência de uma conversa mantida com alguns amigos, artistas plásticos sobretudo, dando conta da colossal falta de apoio que os mesmos carecem para a divulgação e promoção dos seus trabalhos. Então, porque não criar uma plataforma onde os artistas pudessem disponibilizar as suas obras podendo as mesmas serem apreciadas ou negociadas?

A “Nimba Art Gallery”, um projeto de desenvolvimento de arte e cultura pensado precisamente para fortalecer o trabalho dos artistas plásticos e escultores africanos, lusófonos e sul-americanos, bem como oferecer um conjunto de serviços que vá de encontro às necessidades dos seus apreciadores e clientes.

Este projeto de galeria foi lançado em janeiro de 2018.

Até à presente data, foram realizadas mais de oito exposições de arte plástica, nomeadamente em Lisboa, Havana e Bruxelas, este último no Parlamento Europeu. Nas exposições Nimba, estiveram representados cerca de 25 artistas plásticos, respetivamente de Portugal, Cuba, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Cabo-Verde, São-Tomé e Príncipe. Ao todo, foram apresentadas mais de 240 obras das mais variadas técnicas.

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Nimba, uma escultura secular de uma deusa africana foi inspiração

Curiosamente, o nome foi escolhido numa lista de cinco nomes sugeridos por um amigo, um distinto artista plástico guineense radicado no Senegal, na sequência de um desafio que lancei, referindo precisamente a necessidade de dar corpo ao projeto que havia pensado e que carecia de uma identificação clara da visão e dos objetivos previamente definidos. Precisava de algo que enquadrasse a originalidade do projeto, nomeadamente o ato de “semear”, da “fertilidade”, tal como o nascimento de um produto, então encontrei na Nimba, uma escultura secular de uma deusa africana que tem ligação com a tradição religiosa adorada pelas etnias Baga e Nalu, presentes nas repúblicas da Guiné-Bissau e da Guiné-Conacri desde o século XV, considerada como a deusa da fertilidade.

A palavra Nimba vem do vocábulo “Mande” e significa Alma Grande. Os Nalus, na mesma região, adotaram a mesma deusa para celebrar a “sementeira” e a colheita do arroz.

As duas tribos eram especialistas na plantação de arroz e mantinham comércio com os portugueses desde o século XVI. Portanto, o nome Nimba tem tudo a ver com o que queria para este projeto, para além de me oferecer uma outra componente, a de identificação com o meu povo e minha pátria-mãe que é a Guiné-Bissau. Daí a Nimba ter iniciado a sua atividade, há cerca de ano e meio, com a promoção dos artistas plásticos guineenses. Presentemente, a Nimba já trabalha com sul americanos, europeus e asiáticos.

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O curador é um dos protagonistas do mundo da arte. Apesar do crescente interesse por esta figura, o desconhecimento acerca da sua importância na arte e na mediação cultural, persiste.

Um curador é um agente cultural.

Para além de amar a arte, o curador desfruta da sua beleza, faz parte de uma tela pintada ou de uma escultura acabada. O curador trás algo que identifica a sua essência numa obra. Acrescenta a sua alma, procura dar seguimento de uma obra promovendo-a, assim como faz com o próprio artista.

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Seguir viagem, histórias do dia a dia

Na verdade, a Nimba Art Gallery é como um corpo e em constante mutação, acontecem sempre histórias interessantes, tais como a descoberta de um talento, sentir que existe um potencial num artista plástico e, a partir daí, procurar a sua narrativa e tentar perceber o sujeito que está por detrás da obra. No entanto, posso partilhar uma história engraçada que ocorreu durante uma viagem que fiz a Bruxelas, com três artistas plásticos guineenses, para participar numa exposição da Nimba Art Gallery no Parlamento Europeu.

Um dos artistas teve azar e não conseguiu viajar no mesmo dia com o restante grupo, por motivos do formato da sua bagagem, era uma obra de grandes dimensões, ficou retido em terra juntamente com a sua obra. Entretanto, faltavam trinta minutos para o voo, eu e os outros dois artistas estávamos num dilema muito grande, ficar em solidariedade com o colega ou seguir a viagem colocando em risco a exposição agendada logo para o dia seguinte. Decidimos seguir a viagem por sugestão do próprio artista com a garantia de, no dia seguinte, apanhar o primeiro voo, e lá conseguiu! O que aconteceu a seguir…foi deveras interessante e gratificante.

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A arte de admirar – Uma vontade enorme de apresentar a beleza e a grandeza das obras

Já passaram pela Nimba Art Gallery vários artistas plásticos, uns mais conhecidos que outros, mas ambos com uma vontade enorme de apresentar a beleza e a grandeza das suas obras. Desde artistas lusófonos, africanos e sul americanos, que têm feito grande trabalho em exposições nacionais e internacionais, alguns até reconhecidos e homenageados, outros com vários prémios artísticos ganhos em mostras de arte. Já tivemos exposições de artistas vindos da Suíça, Cabo-Verde, Senegal, Costa do Marfim e São Tomé e Príncipe, todos muito conhecidos do público.

Exposição Distorções de Nuno Confraria, na Nimba Art Gallery de Luís Vicente
Exposição Distorções de Nuno Confraria na Nimba Art Gallery

Neste momento está a decorrer na galeria Nimba em Lisboa a exposição “Distorções”, apresentação das obras do conceituado artista plástico português Nuno Confraria.

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Reflexão sobre a arte – Só a olho nu podem ser descobertos os segredos de uma tela 

Temos vários pedidos de artistas plásticos e escultores interessado em trabalhar e expor com a Nimba Art Gallery, nomeadamente do Chile, Bolívia, Uruguai, Cuba, Venezuela, Brasil, Portugal, Senegal, Congo, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Cabo-Verde, Nigéria, Itália, Espanha, Índia, etc. Tem chegado a Nimba várias solicitações, inclusive partilha de obras para apreciação.  O processo de seleção é bastante rigoroso, porque implica uma abordagem muito clara, feita com recurso aos artistas que já estão na rede Nimba e, ainda, críticos de arte que apreciam previamente as obras dos candidatos, emitindo uma opinião sincera sobre as mesmas. Depois segue o processo de análise curricular e expositivo, retirando daí mais elementos que nos possam auxiliar na decisão final.

É que, às vezes, quando analisamos a foto de uma obra ou conjunto de várias obras que nos chegam, por si só não é suficiente formalizarmos uma opinião sincera, pois podemos pecar na análise, uma vez que a foto pode conter várias outras situações que só a olho nu podem ser destrinçadas e descobertos os segredos que contém a tela.

Daí que, as obras que seguem para a loja Nimba Art Gallery carecem de redobrada atenção na sua análise e, posteriormente, lançamento on-line. Então, a avaliação curricular e expositiva torna assim um fator importante, bem como o portfólio de venda, um elemento diferenciador em todo este processo.

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O todo ideal – Acrescentar valor à obra, a mensagem associada e a técnica utilizada.

Na verdade, são muitos artistas e cada com a sua técnica, então é necessária muita coerência na apreciação dos trabalhos que nos chegam. Para além disso, importa ter em atenção o que os trabalhos pretendem transmitir, a mensagem tem que ser clara, até porque o processo de curadoria deve ter uma leitura correta e coerente. Muitos clientes consideram o valor de uma obra associado à mensagem que pretende transmitir, bem como as técnicas usadas. Dois grandes críticos e colecionadores de arte mundial estiveram na galeria física da Nimba em Lisboa. Selecionamos em situações diferentes obras de cinco artistas plásticos para serem apreciadas. O resultado foi impressionante, coincidentemente identificaram claramente os trabalhos que mais impacto poderiam ter no mercado mundial, bem como o interesse que poderiam ter junto de colecionadores e clientes que mais obra de arte compram, nomeadamente Japão e Rússia.

Em boa verdade, não basta apenas saber pintar, importa acrescentar valor à obra, tal como a mensagem associada e a técnica utilizada.

Por exemplo, neste momento, o mercado de arte contemporânea, digamos a clássica, está muito interessada em trabalhos de “Picasso Blue Period”, o período azul de Picasso, que decorreu entre 1901 e 1904, e teve a sua origem no suicídio do seu amigo “Carlos Casagemas” em 17 de fevereiro de 1901, que deixou a Picasso cheio de dor e de tristeza. O que de facto se encontra nessas obras é a tristeza demonstrada pelo artista, facto que trás à colação o sentimento que hoje o mundo atravessa, a desolação e a preocupação com o futuro.

Temos que perceber o contexto histórico e, a partir desse ponto de vista, definir como enquadrar o trabalho artístico.

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O Dom da ubiquidade – Aqui e Ali a Nimba Art Gallery divulga e promove os artistas e a sua arte

Sim, as exposições da Nimba não carecem apenas de um espaço físico, tanto assim que já expôs em mais locais, tanto em Portugal como Bruxelas, este último no Parlamento Europeu. Para além das galerias físicas estamos fortemente presentes nas redes sociais e através do site www.nimbartgallery.pt uma loja on-line de venda de obras de arte.

Brevemente teremos a exposição de um artista-escultor moçambicano, bolseiro da Fundação Gulbenkian, promete ser um marco artístico na arte de reciclar. Logo a seguir será a vez de uma artista plástica portuguesa, também escultora, com grande trabalho no mercado de arte em Portugal. Para terminar o ano, gostaríamos, ainda, de expor os trabalhos de dois artistas, um da Costa do Marfim e outro do Congo, numa exposição coletiva, mas vamos ver, ainda temos muito trabalho pela frente.

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A Nimba Edições

A Nimba Edições surge aqui como um grande complemento da Nimba Art Gallery, ambos os projetos com forte vocação cultural.

Eu próprio escrevi e publiquei dois livros com duas editoras portuguesas. O preço da edição não é barato, muitos escritores e potenciais escritores precisam de um incentivo para escreverem e editarem, daí surgiu, no âmbito deste projeto, a possibilidade de o fazerem a um preço justo.

A Nimba Edições foi lançado em março deste ano e já editou um livro de poesia cujo autor é um poeta e músico guineense – Vital Saune. Neste momento temos mais três livros de autores africanos que estão praticamente concluídos, irão para as bancas ainda este ano. São: 1) Teresa Schwarz (Guiné-Bissau): SILÊNCIO ENTRE DUAS NOTAS. É uma parceria com a Edições Corubal; 2) Osvaldo Kaholo (Angola): K654 – A REALIDADE DA SELVA HUMANA; 3) Luciano Pereira (Guiné-Bissau): OS HOMENS TÊM MEDO DAS MULHERES INDEPENDENTES..

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A força da arte e cultura é fator determinante na mudança de mentalidades

Está no espírito da Nimba Art Gallery o enriquecimento da arte e cultura local, pois entendemos que a força da arte e cultura é fator determinante na mudança de mentalidades. Sou um homem de projetos, comecei no plano local, conheço muito bem esta realidade. A dinâmica dos projetos locais, regionais, nacionais ou internacionais é a mesma, baseia-se sobretudo na definição da visão estratégica, planeamento e orientação para o resultado. Por exemplo, a Nimba tem presente na sua matriz identitária a responsabilidade no campo social.

Queremos partilhar o que de melhor e mais nobre se faz nesta área, tal como disponibilizar um conjunto de projetos de alcance local e municipal, nomeadamente projetos de educação ambiental e escolar, respetivamente “Arte recicla com a Nimba” e “Arte plástica vai à escola”.

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Missão e Valores – Projetando a arte e a cultura Nimba Art Gallery

Na verdade, este é um projeto em rede, um autêntico network, capaz de ligar vários artistas espalhados pelos quatros cantos do mundo.

Tem sido uma dinâmica muito interessante poder acompanhar de perto as conexões que vão surgindo entre os vários artistas plásticos e escultores no âmbito desta plataforma virtual e física. Com as tecnologias à disposição das empresas e das pessoas o mundo fica a um “clique” de distância, tudo é próximo, tudo passa a ser possível quando existem ideias e capacidade empreendedora.

A Nimba está a trabalhar num projeto de impacto global em matéria de arte e cultura cuja estratégia não podemos revelar neste momento. No entanto, podemos adiantar que:

Continuaremos a manter a nossa presença em espaços físicos e virtuais, descobrindo e promovendo novos talentos artísticos bem como potenciais escritores.

 

Site: Nimba Art Gallery

Facebook: Nimba Art Gallery

Nota Biográfica: Nota Biográfica Luís Barbosa Vicente

Leia aqui a reportagem sobre a exposição Distorções de Nuno Confraria

 

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