À conversa com …. Sandra Ramos, escritora

Sandra Ramos, escritora

Há cerca de 3 anos que as nossas vidas se cruzam com Pessoas de exceção que nos encantam e contagiam pela sua vontade férrea de fazer acontecer e nos “obrigam” a cuidar de nós e dos outros. E tal como a nossa entrevistada, a escritora Sandra Ramos, também nós somos inspiradas pelo AMOR à palavra, à arte, em suma por tudo o que nos rodeia, tornando os nossos trilhos bem melhores.

A sua vida tem sido uma pauta de música consecutiva onde não faltam as notas que dão cor à existência.

A arte e a simplicidade da artista Márcia Dias levou-nos até à escritora Sandra Ramos onde “O devorar dos livros é uma constante à imagem do que acontece com o cronicar _ sempre sobre os problemas do MUNDO e do Homem…!”
Leia, inspire-se e surpreenda-se!

Fale-nos um pouco de si, do seu percurso de vida e de que forma desperta o gosto pela escrita?

Nasci em maio de 1976, em Alcochete, uma vila portuguesa do distrito de Setúbal, pertencente à Área Metropolitana de Lisboa. Sou licenciada em Engenharia Química (Faculdade de Ciências e Tecnologia) e fiz mestrado em Gestão da Qualidade. Exerci, durante 7 anos, funções de metrologista no Instituto Português da Qualidade (IPQ), e prestei consultoria na área da Qualidade e de Gestão na LeaderShip Business Consulting, durante 9 meses.
Em 2007, ingressei como Gestora da Qualidade no Laboratório de Análises de Dopagem do atual Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ, I.P.) e desde fevereiro de 2019, exerço funções de Gestora da Qualidade e de Planeamento no INFARMED (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P.).
Desde pequena, que o fascínio pela leitura e pela escrita me assoberba de sobremaneira. Recordo-me desde cedo, que “bebia» os livros infantojuvenis ofertados pelos meus pais, durante as tardes de verão na nossa casa de férias em Portimão (Algarve). Deliciava-me com a leitura, a minha companheira, a amiga, a irmã dos meus tempos livres. Sem a leitura sentia-me amputada naquelas tardes quentes de sol escaldante. O sono não chegava porque era preciso acabar aquele livro e começar outro, que entretanto teria que ler rapidamente.
Cedo troquei as bonecas pelos livros. Não percebia como é que uma adolescente, à minha imagem, não gostava de devorar histórias que levavam tudo e todos ao sonho, e até em momentos de lazer absoluto pedia sub-repticiamente à minha mãe que me falasse dos clássicos que me contasse a ação principal do Primo Basílio e ou de Os Maias. Grande era o fascínio por aqueles personagens que viviam na minha memória de menina; personagens com os quais eu gostaria de dialogar. Tanta questão retórica por colocar…?!
Lembro-me perfeitamente de a mãe falar de Gustave Flaubert e de eu querer saber quem era, e o que fizera de tão relevante. Quando a mãe me contou alguns pormenores de Madame Bovary, senti um encanto enorme pela literatura francesa e, durante muito tempo, cheguei a pensar que seguiria Línguas e Literaturas Modernas/Clássicas como a minha progenitora.
Direi ainda que, durante o meu percurso escolar, fui sempre uma aluna exemplar na área das Línguas, no entanto; a lógica, o raciocínio e o “mágico” mundo das ciências exatas pesaram na minha escolha académica. Feita a escolha, sentia-me incompleta, mas havia feito o «gosto» ao pai – seguir as ciências porque tal como Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) o mundo vive da ciência, da evolução e da modernização. Fiz o 12º ano e caminhei de mãos dadas com a engenharia química. Trabalhei imensa Matemática, Física, Química e afins e no final a apoteose ; engenheira, mulher das ciências, da gestão da qualidade.

Mas e há sempre um MAS, eu adorava as estórias que a mãe continuava a somar, e às vezes, olhando o céu estrelado, perguntava ao infinito, porquê, porque é que eu estaria dentro de um laboratório em experiências, quando queria ter uma nave de suporte para voar e consequentemente criar novos mundos…?!

 

O que a motiva como escritora? O que mais gosta de escrever?

Aprecio sobremaneira Arte, a sua grandeza. Uma tela, um desenho que respira a loucura incandescente da emoção de um Artista; embutida em mensagens fogosas, quentes… telas onde posso voar livremente; como as Telas da Grande Artista Márcia Dias.
O mundo é hoje um espaço disfórico onde tudo acontece. Tudo é brutal…! Nada é gerido com coesão e o turbilhão que vive diariamente connosco é tão grande que quase não paramos para pensar. Perderam-se imensos valores, algumas “regras” desapareceram.  Vezes sem conta, quando me deparo com situações de calamidade, injustiça e deslealdade; tenho que “gritar” ao Mundo o que me aflige.

O que me leva a escrever é TUDO o que assinalei atrás – a voz dos Artistas e do Mundo!

Como concilia a escrita com a família e a vida social?

Para tudo é preciso disciplina e eu aprendi a calendarizar atividades desde cedo. Este património foi um legado dos meus pais. Depressa e bem, não há quem; portanto, depois de um dia de entrega ao trabalho, de uma caminhada, de um jantar com amigos; há aquela vontade de abrir o PC e de dizer o que vi, ouvi e/ou senti; sobretudo na envolvência da madrugada. Digo devagar através da linha curta (do verso) e sinto que é essa a informação que todos os dias me acompanha. Às vezes para me inteirar das notícias nacionais e internacionais é no «abraço» dado ao PC e à web que encontro a informação adequada. Ganhei este lema: querer é poder.

É possível ter um trabalho profissional intenso e manter a inspiração e vontade de escrever?

Como já referi, é desse frenesim que nasce a vontade de dizer, é da azáfama diária que nasce este querer mais forte de dizer – em verso – que a ARTE nasce connosco e que deveria ter um espaço digno de convívio com quem a pratica.
Direi que não é impossível de todo conciliar o trabalho e a escrita; todavia quando o fim-de-semana chega e o alívio vem com o manto negro da noite, a inspiração vem carregada de malas e bagagens.

Aguarda o momento de inspiração para escrever ou começa e a inspiração vem a seguir, ou convida a inspiração com a prática de exercícios específicos?

A inspiração nasce com a vontade de dizer…! Quando o cansaço aperta é ela a mola que me leva à paz. Abro a janela da minha alma e digo de mim e do mundo. Fico aliviada…PONTO!

Qual o seu ambiente preferido para escrever? Em silêncio ou com música?

É no silêncio e com ele, que a inspiração fala comigo. Adoro música, e é maravilhoso mergulhar numa melodia e escrever sobre uma Tela; portanto direi, que na paz da alma musical que é minha e no apagar da luz do mundo é que nasce a minha vontade de dizer…!

Tem alguma rotina especial quando está a preparar um livro?

Não. Na arte da escrita não existem rotinas. Quando o estou a preparar, trato dele como se fosse mais um filho, olhe-o pela enésima vez, escolho a indumentária conducente (capa, contracapa, sinopse e afins) e depois deixo que ele parta à imagem do vento.

O que sente a escrever? Considera que a escrita é um processo doloroso e desgastante ou, é antes, um processo que fluí facilmente?

A escrita é um RIO que desagua no MAR. Direi sem receio de errar que quem escreve porque gosta, tudo flui à imagem do vento que passa. Mergulha-se na palavra e fazemos dela o que queremos doando-lhe um contexto apropriado. O desgaste não existe, quando se produz o que se quer, quando se ama a ESCRITA.

Tem algum autor preferido que sinta que a tenha influenciado? Quem são os seus autores preferidos?

Um dos meus escritores preferidos é indubitavelmente Sophia de Mello Breyner Andresen. Tudo nela é mar, praia, magia e encanto.
Segue-se Eugénio de Andrade, o Homem da Palavra, o que faz apelos incessantes ao leitor para que este considere e reconsidere antes de atuar.
Não posso deixar de referir Fernando Pessoa, o Mestre conhecido internacionalmente, desde a sua Autobiografia até aos seus heterónimos. O que mais me encanta, pela formação e pela maneira como se expressa; é Álvaro de Campos que tudo fez para mudar o Mundo. A Ode Triunfal é um deleite. Antero de Quental, o homem do sonho, o Palácio da Aventura onde ninguém chega. Todos querem chegar lá, bater na porta da felicidade, mas por muito que se trabalhe; existe sempre uma pedra no caminho.
Miguel Torga, o que ama a sua Terra e as suas raízes assim como eu amo tanto o Mar e o Sol.
Cesário Verde, o que deambula pela cidade de Lisboa em tempos de pandemia como agora, sem pejo, vergonha, receio. Um autêntico repórter fotográfico que pinta com palavras a Lisboa do final do século XIX, que descreve as Sete Colinas como ninguém.

São estes autores que me deram esta vela (imaginação), que tento guardar dentro de mim sempre.

Pode recomendar dois livros a destacar o que mais gosta em cada um deles?

Destacarei  Se eu te quisesse… de Luísa Ramos (a minha mãe), um romance que versa o tema dos órfãos de pais vivos numa sociedade que se tem vindo a degradar, diariamente e ao compasso do próprio tempo que passa. Lisboa é a urbe onde tudo acontece e até o Tejo chorou, quando o João foi capaz de refutar aquela que sempre o rejeitou.
Outro livro, O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago (o nosso nobel da literatura) onde um EU encontra outro EU e só percebe que viveu porque escreveu sobre ele. Tanta gente que à imagem de Ricardo Reis não vive, vegeta. As mulheres chamadas a intervir são personagens da nossa sociedade com as quais nos cruzamos diariamente, mas delas pouco conhecemos, porque ou não interessa ou estão a mais…!

Se um jovem escritor lhe pedisse conselhos, o que lhe diria? O mesmo que gostaria que lhe tivessem dito quando começou e não lhe disseram?

Se te dá prazer escrever, fá-lo. Se não venderes fica como espólio de família, porque a escrita é ARTE e só a consome quem gosta. Se a sociedade hoje vive entretida com as redes sociais e se não lê o artista da palavra não pode fazer nada, logo urge que se escreva, mais que não seja para gosto próprio e para equilíbrio emocional – dever cumprido (sensação).

Qual seria a sua resposta às suas próprias perguntas?

  •  Porque escrevo?
Porque não sei viver sem dizer o que me vai na alma. Preciso da escrita como do ar que respiro. É a seiva de nutrientes que me alimenta.
  • Para quem escrevo?
Para mim e para todos os que veem na escrita uma mensagem a reter para construir ou para modificar.
  • Qual o objetivo da minha escrita?
Pintar o mundo com letras, dizendo o que me aflige, o que me conserta e o que me faz FELIZ.
  • O meu livro é a minha obra de arte, o que o distingue dos outros?
Não. O meu livro é um filho feito de mensagens. Nada o distingue dos outros porque cada artista diz do que vê, sente ou pressente; logo não há livros iguais porque somos são todos diferentes.
  • Será possível, os meus livros passarem para a tela do cinema, uma das minhas grandes paixões?
Não de todo. Só os grandes vultos da escrita MUNDIAL conseguem esse mérito. Seria de facto um sonho… e o que seria da Vida sem a fantasia…?

Se pudesse fazer 3 perguntas aos seus escritores, quais seriam?

Estás realizado? Gostas de juntar vogais e consoantes e ver nascer frases que trarão mensagens ao mundo? Preocupa-te o lucro, ou o gozo? És feliz dissecando uma história que outro já escreveu?

Obrigada Sandra Ramos.
Desejamos boas Inspirações e boas Leituras!

Está em fase de finalização a sua obra” Memórias de um tempo enfermo e infinito… (Diário epidémico)”, com a chancela Chiado-Editora. Uma panóplia de textos escritos durante a quarentena resultante da pandemia universal.

 

Sandra Ramos, pseudónimo “Sarah”

Autora da página (criada em 30 de abril de 2020):

https://www.facebook.com/Sandra-Ramos-Autora-119199409773243

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