À conversa com Welket Bungué – ator, autor e produtor cinematográfico

Welket Bungué nesta entrevista conta-nos um pouco da sua história de vida que é, sem dúvida, uma história de superação e de resiliência pessoal e artística. Fala com carinho e orgulho na família, o pai, a madrasta que considera mãe e demonstra claramente o amor e admiração que sente pelo irmão. Inconformado com o estado das coisas, afirma-se pelo trabalho que desenvolve e quer que seja honestamente interpretado como uma chamada de atenção para despertar consciências para as situações de conflito social que muitas vezes geram violência, em resultado das desigualdades económicas, culturais, raciais entre outras. São histórias que acontecem em bairros, nas margens de grandes cidades, precários e com falta de infraestruturas de suporte que permitam aos seus habitantes uma vida condigna contrariamente ao idealizado para uma vida em sociedade no século em que vivemos.

 

Welket Bungué chega a Portugal com a família em 1991, era parte da segunda geração de emigração da diáspora africana.

Vim com a família, ou seja, o meu pai Paulo T. Bungué, a minha madrasta a que considero minha mãe, a Sra. Maria de Fátima Alatrache e o meu irmão Welsau que agora vive em Paris, é jogador profissional de andebol co-fundador da produtora Kussa Productions.  O meu pai ainda estava a fazer formação em Engenharia Florestal quando quis que nós, filhos, e a nossa mãe tivéssemos uma oportunidade de vida mais estável, por outras palavras, um outro conforto e possibilidade de trabalho foram as motivações principais que o fez vir para a Europa connosco, tendo-nos fixado em Portugal.

 

Ainda muito jovem estreia-se como ator descobrindo a paixão pela arte da representação.

Passei a minha adolescência em Beja, na Casa do Estudante onde estive 8 anos até 2007.  Foi lá, aos 15 anos quando comecei a fazer teatro amador.  Estreámos a peça Hamlet de William Shakespeare encenada por David Silva, e eu interpretei o papel da Rainha Gertrudes. (risos…). Tinha abraçado o desafio de fazer um workshop de Teatro e depois como o entusiasmo dos participantes foi tão grande, acabámos por fundar uma companhia de teatro amador chamada Homlet – Companhia de Teatro de Beja.

 

E assim foi consolidando a sua formação e profissionalização enquanto ator.

Terminado o internato, regressa a Lisboa à casa dos pais, mas a paixão pela arte da representação permanece viva e, durante 3 anos, procura desenvolver o seu talento adquirindo formação em teatro e fazendo teatro académico na companhia Rastilho que na época estava sediada na Universidade de Arquitetura de Lisboa. Entre 2009 e 2012 entra para o conservatório, Escola Superior de Teatro e Cinema onde fez formação na vertente de ator. Entre 2012 e 2013 vai para o Brasil. Na UniRio faz uma pós-graduação em Arte da Performance. Desde essa altura que viaja com frequência para o Brasil onde atua como ator e como performer.

 

Para ser um bom ator a formação e a dedicação ao trabalho é fundamental.

A formação é essencial, mostra-nos como fazer uso das ferramentas disponíveis, dá um embasamento teórico sobre o tipo de trabalho que faço como ator e performer, como autor e também realizador. Mas a liberdade de poder ser nómada, circulando entre a Europa, o Brasil e África, traz mais legitimidade e propriedade aos meus trabalhos, tendo em conta os focos de atuação e intervenção ao  abordar temas como a negritude, descolonização, subversão e questionamento às normatividades do sistema vigente. Esta transitoriedade geográfica, para quem pode gerar conteúdo artístico, intelectual e cultural, dá um conhecimento profundo das realidades vividas para depois poder transformar e mostrar esse conhecimento.
Welket Bungué em 'Intervenção Jah'. (2019)
Welket Bungué em ‘Intervenção Jah’. (2019)

 

Poder viajar, conhecer as diferentes realidades e ter uma base académica foi fundamental para o meu trabalho.

Em 2008 participei como ator em ‘Equador’ uma produção da TVI e da Plural. Fomos filmar durante 3 meses em Salvador da Bahia e, nesse mesmo ano, fui filmar para a Índia uma longa metragem chamada ‘Kaminey’, mas as cenas filmadas foram consideradas violentas do ponto de vista gráfico e acabaram por ser suprimidas do filme, por conta das categorizações dos filmes na Índia. Resultaram duas versões do filme, a que foi comercializada – à qual foram subtraídas essas cenas para não comprometer a comercialização e circulação do filme, e a versão do realizador Vishal Bhardwaj (director’s cut) com todas as cenas.

 

Welket Bungué enquanto ator já interpretou, com sucesso, grandes personagens.

A personagem que maior desafio me trouxe, enquanto ator, foi Saturnino interpretado em ‘Equador’.

Do ponto de vista da interpretação, a personagem Saturnino mostrava o lado mais libertário das figuras escravizadas, na época da colonização portuguesa. A vida da personagem trabalhando nos campos de exploração do cacau em São Tomé e Príncipe  obrigava-me a uma desenvoltura muscular devido ao porte físico da personagem, a uma interiorização do papel da personagem omitindo os sentimentos e as minhas emoções mais profundas, como foi no caso da minha revolta contra os “castigos” violentos infligidos aos escravos numa cena de chicoteamento. Nesta reconstituição histórica, Saturnino fica amarrado durante 3 dias a dois troncos e toda essa opressão violenta infligida fisicamente à personagem é tida como exemplo corretivo para os outros escravizados na narrativa da ficção que estávamos a contar. Foi penoso pois, mesmo sendo uma reconstituição histórica, não concordava com aquelas cenas por continuarem a reproduzir uma lógica de entendimento “histórico” do ponto de vista dos colonizadores (brancos) relativamente aos escravizados (negros).
Emocionalmente já me considerava preparado para o desafio porque já tinha interpretado Otelo na peça de Shakespeare, encenação de David Silva. Mas o desfecho da história de Saturnino e Masara, a sua amada interpretada pela Ciomara Morais, é diferente da de Otelo que acaba por cegamente tirar a vida a Desdémona. Em ‘Equador’ fica no ar um vislumbre de esperança, o romance entre o casal Saturnino e Masara, prevê em si uma reconciliação e unidade pelo reconhecimento de ambos na sua paridade e essa revolução um tanto romanesca antevê, simbolicamente, o princípio do fim do império colonial português nas províncias africanas, com direito à liberdade e a uma vida dignificante.

 

A superação enquanto artista e pessoa

Depois de participar na série ‘Equador’, não houve uma continuidade, acredito que foi devido ao desinvestimento mediático por parte da produtora ou do canal televisivo. Contrariamente a outros atores portugueses que correspondem a um perfil mais típico televisivo e com um valor comercial associado à imagem das pessoas, não foi o que aconteceu no meu caso porque não tive a devida valorização enquanto artista e, por isso, não tive projeção e consequentemente não se proporcionou um reconhecimento público que levasse a uma maior procura da minha presença na ficção nacional por parte das produtoras.

 

Agora, passado algum tempo, acabo por agradecer porque tive de continuar a auto superar-me enquanto artista e pessoa.

O facto de ter percebido melhor como funciona o mercado e a produção audiovisual em Portugal, levou-me a expandir a minha procura para outros mercados mais ambiciosos e diversificados, onde posso trabalhar como ator ou onde exista a oportunidade de adaptação do meu perfil, não só na interpretação de personagens em reproduções históricas, mas que os convites não se resumam à tendenciosa proposição para personagens “bandidos”, “durões” ou “escravizados”. Não tenho feito televisão em Portugal porque são maioritariamente esses os perfis para os quais me chamaram insistentemente após participar na série juvenil ‘Morangos com Açúcar’ (2009). No cinema as personagens que não têm um background consistente ou com pouco relevo na intervenção que exercem na história, devem ser preenchidos por atores ou atrizes emergentes e que necessitam ganhar mais experiência e assim introduzi-los progressivamente na indústria, e assim deve ser também na televisão.

 

A distinção que recebeu de Melhor Actor e Melhor Primeira Obra nos prémios Shortcutz 2017.

Uma distinção que considero ser o corolário do meu esforço em  fazer acontecer o filme ‘Bastien’. Um esforço que não é apenas individual pois contou com a participação de muita gente. ‘Bastien’ estreou no Festival Internacional de Avanca em 2016 e teve um grande percurso, passou em São Tomé, Cabo Verde, Rio de Janeiro, Toulouse, na Bélgica e em quase duas dezenas de festivais internacionais.

Considero que este prémio valoriza a minha performance e o meu esforço enquanto artista independente, continuou a motivar-me para trabalhar e dar continuidade aos meus projetos cinematográficos.

Welket Bungué em 'Bastien'. Prémio de Melhor Actor e Melhor Primeira Obra nos prémios Shortcutz 2017
Welket Bungué em ‘Bastien’. Prémio de Melhor Actor e Melhor Primeira Obra nos prémios Shortcutz 2017

A Kussa Productions

Kussa Productions surge da necessidade de se afirmar um nome no mercado.

Desde 2015, ano em que crio o primeiro projeto ‘Buôn’ vi-me obrigado a associar-me uma produtora e o mesmo aconteceu em 2016 com ‘Bastien’.

Como autor e artista independente via e sentia essa necessidade. O meu irmão Welsau Bungué já se afirmara como videasta e produtor de videoclipes musicais para artistas portugueses e franceses. Resolvemos, pois, aglutinar a nossa desenvoltura produtiva como artistas profissionais, consolidando o nome no mercado com a criação da produtora Kussa Productions. “Kusa” significa “coisa” em crioulo da Guiné Bissau, nosso país natal.
Welket Bungué e Welsau Bungué co-fundadores KUSSA Productions (2017)
Welket Bungué e Welsau Bungué co-fundadores KUSSA Productions (2017)

As dificuldades a vencer 

As dificuldades passam por gerir o orçamento disponível e a dificuldade de ter acesso a uma rede que permita a distribuição das produções. Para ultrapassar estes constrangimentos faço uso do espaço onde já circulo: Brasil, Inglaterra, Alemanha e África nos territórios falantes de língua portuguesa. Os filmes são enviados para festivais independentes, não há uma mediatização tão massificada e os filmes selecionados são sobretudo autorais e com características muito distintivas (caracteristicamente estes filmes raramente chegam ao mercado comercial).  Forço-me a traduzir os filmes em inglês para chegar a outros mercados e faço uso das redes sociais para divulgar materiais de comunicação dos meus filmes mostrando as minhas valências enquanto cineasta, artista e cidadão.

 

As produções cinematográficas, vão desde webséries a curtas-metragens

A websérie ‘Vã Alma’ antecipa a história da curta-metragem “Arriaga” com a colaboração dos COMICALATE que começaram por produzir filmes sem orçamento e sem planeamento convencional de logística de produção. Hoje já têm um lugar na RTP, graças ao laboratório criativo que se criou por iniciativa da emissora. O orçamento   para a criação dos filmes sai do meu bolso, pela minha vontade de realizar os projetos e conto com a disponibilidade de outras pessoas que convido. É assim que vou concretizando os projetos, mas é com um grande esforço e empatia das partes envolvidas.

Muita dedicação e um grande “jogo de cintura” para chegar ao fim. É preciso captar a atenção dos espetadores, é preciso reinventar e dar credibilidade ao trabalho que faço.

Não haver uma catalogação de filmes produzidos enquanto peças de autores independentes torna tudo muito difícil. Houve situações em que o único filme português que representou Portugal além-fronteiras, foi o meu, mas raras vezes tive o apoio da imprensa, poderia ser um blogue ou um entusiasta do cinema a falar sobre essas ocasionalidades. Por tudo isto, é difícil consolidar um reportório de festivais e produções independentes de filmes apresentados nos festivais. Acaba por ter de ser o autor a fazer este trabalho de catalogação de acervo criando um portfolio para que, um dia, se consiga apresentar toda a trajetória enquanto artista e se saiba que as coisas não “caíram do céu”.

 

É através da arte que procura espaço para comunicar a sua forma de pensar, de agir, de sentir.

Os meus trabalhos têm sempre uma contextualização e não terminam nas salas de cinema, mas pelo contrário, pretendem chegar à individualidade de cada um.

Trabalho com honestidade, procuro abordar questões que me desassossegam, sempre tendo presente o momento e o contexto em que os acontecimentos surgem.

Procuro, a pouco e pouco, vir a consolidar um discurso artístico e crítico firmando assim a minha ideia de reportório.

Tudo o que é feito com um envolvimento profundo e honesto não perde crédito com o passar do tempo, pelo contrário torna-se mais marcante e é nesse sentido que trabalho e invisto.

 

Welket Bungué em Bissau filmando o documentário 'Elaeis Guineeensis' (2019)
Welket Bungué em Bissau filmando o documentário ‘Elaeis Guineeensis’ (2019)

 

Todos nós partilhamos uma condição comum, a de sermos humanos habitando um mesmo planeta.

Sinto-me um cidadão do mundo e globalizado porque é um sentimento transmitido pela condição de migrante, através do meu pai que viajou muito antes de chegar a Portugal. O mesmo acontece com o meu irmão que já jogou em diferentes países.

É a multiculturalidade que não se esgota na realidade portuguesa, as múltiplas experiências que tenho vivido, que fazem com que a minha forma de pensar vá além da realidade portuguesa e que moldam a minha individualidade.

É assim que consigo perceber a urgência e a pertinência das temáticas que abordo no meu trabalho e que possibilitam o diálogo com diferentes pessoas em diferentes partes do mundo. Não me enquadro com os sistemas capitalistas, o que me cria alguns confrontos. Considero-me um artista que não se privilegia pelo sistema, nesta massificação e mediatização de conteúdos. Os meus trabalhos refletem a realidade étnico-cultural resultante de uma máquina capitalista ostracizante.

 

Welket Bungué é também locutor para entidades internacionais, desenvolve Escrita Dramática, Argumento de Cinema, Performances e Teatro, mas é como ator que mais se sente realizado.

Tenho muito prazer em tudo o que faço e aceito com gratidão os trabalhos que têm surgido no meu caminho. Sinto que é um privilégio poder trabalhar em todas as áreas em que o faço.

Tenho ao meu lado muita gente disponível para me ouvir, ajudar e consumir o que faço. Julgo-me uma pessoa com capacidade de aprender e crescer com todas as situações e sinergias que surgem quando estou a trabalhar profissionalmente e isso é uma mais valia.

Ser ator é a minha “praia”, é o que me dá mais prazer. A realização surge como uma necessidade e é algo que ideológica e politicamente eu tenho de continuar a fazer e a transmitir.

Ser ator é o meu grande desígnio.

Welket Bungué em 'Aginal'. Foto de Kristin Bethge (2018)
Welket Bungué em ‘Aginal’. Foto de Kristin Bethge (2018)

 

Tendo nascido na Guiné-Bissau, não esquece esse país. É sua vontade contribuir através da sua arte, para o desenvolvimento cultural e para a projeção do país.

Depois de 28 anos voltei à minha terra. Considero a Guiné-Bissau um país com muito potencial, costumo dizer que é um diamante em bruto que será lapidado por aqueles que são mais sensíveis, mais honestos e se preocupam com o bem-estar e o progresso no todo.

É um sonho meu um dia criar um Centro de Artes que possa ter oficinas, cursos e intercâmbios com artistas internacionais para ensinar e  incutir a sensibilidade para o consumo da produção nacional guineense. Como em todo o lado, existem pessoas com grande carácter, são perseverantes e têm trabalhado para a valorização e soberania da Guiné-Bissau.

Neste momento, estou a editar um documentário de ficção a partir das 7 ou 8 horas de imagens captadas na minha visita à Guiné-Bissau. O título ainda é provisório ‘Elaeis Guineeensis’, que é o nome de uma palmeira autóctone da Guiné-Bissau. Está a ser um trabalho demorado porque preciso de um distanciamento não por questões emocionais, mas por questões estéticas pois pretendo retratar a originalidade das pessoas de lá, que me pareceram de grande personalidade, perseverantes e de sensibilidade solidária.

 

Os projetos de Welket Bungué

Estão previstas estreias de três longas-metragens para o próximo ano, duas brasileiras sendo uma do realizador Bernard Lessa e a outra de Laís Bodanzky entitulada ‘Pedro’, protagonizada pelo Cauã Reimond, com a Isabél Zuaa e a Victória Guerra também no elenco. Há ainda uma longa-metragem alemã ‘Alexanderplatz’ que é baseado na cultuada obra da literatura moderna alemã ‘Berlin Alexanderplatz’ de Alfred Doblin e que já foi reproduzido em série nos finais dos anos 80 pelo realizador Fassbinder.
Tenho ainda filme autorais que estão por estrear, possivelmente irão estrear no início do próximo ano. Posso dizer-vos que um dos filmes é um documentário “Lisboa, Pódio de Quimeras” que é um recorte de cerca de 30 minutos, de um momento de celebração por parte da diáspora africana, maioritariamente são tomense, passado no Bairro da Torre em Camarate, um lugar avassalado por despejos e por ocupações ditas clandestinas por parte da comunidade cigana e de algumas famílias de “afrodescendentes”. O filme é feito para questionar o que é esta dita clandestinidade e o que é este lugar não permitido à habitação condigna, mas o documentário pretende também dar visibilidade, num rasgo de espontaneidade autoral, a um momento onde se vêem corpos de “negros e de negras afrodescendentes” em trânsito livre e em celebração, numa Lisboa pulsante e viva mas em muito diferente daquela que nos é dada a ver pelos media. O filme traz muitos contrastes, estou curioso e com vontade que chegue a algum festival português ou estrangeiro. Para isso terei de legendar o filme em inglês para que o espectro de possibilidades seja maior. Enquanto isso, estarei a viver em Berlim, fazendo a ponte com o Rio de Janeiro.

 

Foi muito boa esta temporada passada aqui em Lisboa, nos últimos três meses tive a oportunidade de estrear dois filmes “Arriaga” em maio no IndieLisboa, e recentemente um filme-manifesto no Festival DocLisboa, ‘Eu Não Sou Pilatus’.

Continuarei a trabalhar nesta ideia de autoria e de disrupção, antecipando-me do ponto de vista da distribuição e  produção. Tento ocupar com a devida responsabilidade, o lugar de propriedade sobre os filmes e discursos que tenho vindo a reproduzir.

 

 

 

YouTube: Welket Bungué e KUSSA Productions

Página do Facebook: www.facebook.com/welketbungureofficial

Instagram: welketbungue.movies

Website: www.kussaproductions.com

 

 

Nota: A foto da capa desta entrevista, Welket Bungué na conferência de imprensa do filme ‘Joaquim’ de Marcelo Gomes na Berlinale,  é de autoria de Tobias Schwarz .

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