À conversa com Júlio F. R. Costa, artista plástico

Nesta conversa com Júlio F. R. Costa, ficámos a conhecer um artista plástico ímpar que faz refletir nas suas criações as preocupações com as desigualdades sociais e a futilidade que sente nos tempos atuais.

Júlio F. R. Costa, interessa-se e trabalha no conceito que está por detrás de uma obra para que ela transmita ao espetador a sua forma peculiar de ver e sentir a realidade.  Nos trabalhos de Júlio F. R. Costa percebemos que as suas preocupações com as desigualdades sociais e a futilidade que sente nos tempos atuais, são motivo de inspiração. Curioso é o seu gosto pelo trabalho em pedra, Júlio F. R. Costa diz-nos que, de todas as formas de expressão artística que já experimentou e trabalhou, na perspetiva do processo, o trabalho em pedra, pela “violência” empreendida, é atualmente o que mais lhe dá prazer.

 

“… no “trabalhar do conceito”, artisticamente falando, serve a fundamentação das obras que executo.”

“… não interessa se é pintura, escultura, vídeo, interessa a obra na totalidade das suas determinações – unidade do conteúdo e da forma.”

 

 

 

Até que as pedras se ergam - obra de Júlio F. R. Costa
Até que as pedras se ergam (instalação) 

 

Quando perguntámos a Júlio F. R. Costa como se vê como artista e como foi o seu percurso que o levou a interessar-se pela arte, responde-nos de forma singular:

Como não sei responder a esta pergunta, vou fugir à questão, desconversando. Dessa forma, digo que foi a arte que se interessou por mim e não eu pela arte, qual conceito que anda por aí a pairar e se manifestou em mim (risos). Falando a sério, não consigo traçar o caminho que me levou ao interesse pela arte, mas do que me lembro melhor é de, desde muito cedo, os professores ralharem e atribuírem faltas disciplinares por desenhar nas margens dos cadernos.

Dos sonhos que tive, foste o mais belo (pintura) de Júlio F. R. Costa

Dos sonhos que tive, foste o mais belo (pintura)

No seu percurso académico fez uma licenciatura em Filosofia. De que forma esta formação influencia a sua forma de ver e sentir o mundo e, consequentemente, as suas criações artísticas?

A licenciatura em Filosofia, acima de tudo, é uma ferramenta de reflexão – não a licenciatura, mas os conhecimentos que obtive. Ou seja, no “trabalhar do conceito”, artisticamente falando, serve a fundamentação das obras que executo.

 

Quando e em que circunstâncias aconteceu a sua primeira experiência com a arte?

A riscar os cadernos, que os professores queriam bonitinhos. Acrescento que não olhei para as consequências e continuei sempre a desenhar, independentemente do desagrado da outra parte. Talvez tenha sido a minha primeira atitude de resistência, que, mais tarde, pode ser visível em algumas obras de minha autoria.

 

Quando resolveu partilhar as suas obras com o público? Como foi a sua primeira exposição?

Foi um concurso patrocinado pelo hospital de Torres Novas (local onde nasci e vivi até aos 18 anos) direcionado às escolas da região (julgo que apenas aos alunos do 2º ciclo). Fiz um desenho da Branca-de-Neve, e ganhei o primeiro prémio, que consistia num computador, impressora e scanner para a escola e a transposição do meu desenho para um painel de azulejos a ser alojado na ala de pediatria. O painel nunca foi executado. A experiência devia ter servido de lição e ter-me dado pistas de como a sociedade vê os artistas. Mas o desenho esteve exposto uns tempos…

 

Para além da pintura, dedica-se a outros tipos de artes visuais como o vídeo, a animação de desenhos que cria etc. Quando e como descobre que tem vários talentos que o levam a criar arte?

A falta de recursos leva a puxar pela criatividade.

Foi sempre minha vontade fazer cinema, área que tem um carinho muito especial da minha parte e dedicação enquanto espectador. Visto que o desenho era algo que já estava na minha vida – no sentido prático, há muito mais tempo – a animação (experimental) era uma possibilidade alcançável com poucos recursos. Pus mãos à obra e foram saindo os primeiros experimentos. Os que me satisfizeram enviei para festivais e em 2017 (sensivelmente um ano depois de ter começado) tive a primeira estreia no FUSO. Desde então, tenho vindo a experimentar novas formas e novos conteúdos. Noutros moldes artísticos, a curiosidade pelo material – e suas potencialidades – desperta a vontade de os trabalhar e que da matéria-prima surjam obras.

 

Júlio F. R. Costa e a sua obra "o Peso dos Dias"
O Peso dos Dias (animação experimental)

 

De todas as formas de expressão artística que já tem experimentado e trabalhado, tem alguma que seja a sua preferida?

Na perspetiva do processo, o trabalho em pedra, pela “violência” empreendida, é, atualmente o que me dá mais prazer – dá para descarregar as minhas frustrações. Quanto a forma de me exprimir, vejo a totalidade das minhas obras no seu resultado final, e aí a minha perspetiva vai bastante ao encontro do pensamento contemporâneo – essencialmente no pensamento de Arthur C. Danto – de que não importa o medium , interessa, sim, o conceito por detrás da obra e a sua posição – conceptual – no mundo (aqui, vou para além do artworld, falo da sociedade em geral). Ou seja, no final das contas, não interessa se é pintura, escultura, vídeo, interessa a obra na totalidade das suas determinações – unidade do conteúdo e da forma.

 

Pode descrever-nos um pouco como desenvolve todo o processo desde a inspiração à criação de uma obra seja ela pintura, desenho, escultura ou outra?

Muitas horas de reflexão e de especulações mentais em torno do que poderá vir a ser a obra. Depois, na execução, joga-se com as capacidades de execução e com os erros e suas correções. Mas penso sempre nos recursos que tenho para executar e na melhor forma de executar com aquilo a que tenho acesso. Não posso pensar num filme que me exija orçamentos elevados – nem lá perto – tenho de tentar fazer muito com pouco.

 

Ela está morta, os seus amigos e familiares reagem (pintura)

 

 

Quais são as suas principais influências na sua produção artística?

 

O horror que é a sociedade hodierna. Desde as desigualdades sociais abissais às futilidades que movem os tempos em que vivemos.

 

Narcisismo, uma fábula hodierna (pintura) de Júlio F.R. Costa
Narcisismo, uma fábula hodierna (pintura)

 

Qual o trabalho mais desafiador que já fez ou já produziu?

A curta-metragem “O Peso dos Dias” (https://vimeo.com/237112149) que estreou no IndieLisboa, em 2018. Muitas horas de trabalho seguidas e muito improviso – apesar da sua curta duração. A última curta-metragem que realizei “Enquanto os Leões Dormem…”, que ainda não estreou, também teve os seus desafios – é o primeiro projeto que realizo que não é de animação e que envolveu mais gente, e como estou habituado a trabalhar sozinho, foi um novo desafio que não dependia somente de mim.

 

Júlio F. R. Costa, nas suas obras vemos que a cor “azul” está muito presente. Há algum motivo para isto?

O azul-ultramarino é a minha cor preferida.
 

Tem projetos futuros? Ou para si é tudo inesperado resultando de imprevistos?

Tenho constantemente imensos projetos em mente. O mais difícil é decidir por qual começar. Acaba sempre por ser mais difícil, e penoso, a parte da divulgação e de fazer chegar as obras aos olhos do público. Continuo a tentar fazer chegar a algum lado os projetos antigos, e novos vão sendo acumulados na pilha. É complicado dividir os esforços por todos. Ou seja, todos os projetos acabam por ser projetos futuros, porque os antigos ainda lutam por uma vida desligada de mim, mas que depende de mim. Quanto a coisas por executar, atualmente estou mais inclinado para a escrita, quero acabar de escrever o meu terceiro romance (sendo que o primeiro está para ser publicado, embora sem data definida ainda, e o segundo está acabado e alojado na “gaveta”).

 

No artigo publicado recentemente Exposição Coletiva de Pintura  pode apreciar outras obras de Júlio F. R. Costa

 

Facebook: https://www.facebook.com/jcostarte/

 

 

 

 

 

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