À conversa com Zeferino Boal – presidente da Casa de Angola

Hucilluc à conversa com Zeferino Boal

 

Inesperadamente, no coração da cidade de Lisboa, a Casa de Angola surge como um espaço onde os aromas, as cores e as obras expostas nos remetem para o fascinante universo angolano.

 

Casa de Angola

Quase meio século de existência

Vamos saber mais sobre esta associação com quase meio século de existência pela voz do seu presidente Zeferino Boal.  Zeferino Boal é um homem com uma vasta e diversificada experiência profissional. É rigoroso na gestão financeira, arguto na gestão de pessoas, soube construir uma equipa que levou a Marca Casa de Angola a ter o prestígio que hoje tem. É amplamente reconhecida pelo seu importante papel de impulsionadora da divulgação e da promoção da cultura angolana.

 

A Casa de Angola em Portugal é um espaço para amigos e naturais de Angola

Zeferino Boal refere que, apesar das dificuldades que abalaram a instituição nos últimos anos, a Casa de Angola é um espaço de todos e para todos os querem dignificar e levar mais longe a cultura angolana e o país.

Consagrado nos próprios estatutos a Casa de Angola “é um espaço para os amigos e naturais de Angola”

 Uma localização perfeita para a Casa de Angola

Zeferino Boal, presidente da Casa de Angola, recebeu-nos para, numa conversa informal, falar sobre a história e sobre o atual papel desta casa. Depois de uma deliciosa refeição no restaurante, subimos ao seu gabinete, uma sala no 3º piso de um belo edifício situado na Travessa das Sedas, (uma rua que preserva, pela toponímia, a memória da Fábrica das Sedas cuja instalação se iniciou cerca de 1730). O edifício, uma moraria, foi projetado pelo Arquiteto Caciano Branco onde chegou a viver, é património da Casa de Angola desde a sua criação.

A cidade de Lisboa tem vindo a perder população, mas a oferta de serviços é grande. A localização da Casa de Angola é boa, mas a concorrência de oferta é muito grande por isso temos de apostar na qualidade para nos diferenciarmos.

 

A história das Instituições não pode ser ignorada

Zeferino Boal considera que houve cinco datas que marcaram de forma significativa a história desta associação. Começou em 1971, aquando da sua criação em 25 de junho. Assume-se como um legado da antiga Casa de Estudantes do Império (Lisboa e Coimbra). Nasceu quando o Estado Novo promoveu a unificação das várias instituições de apoio aos jovens estudantes na metrópole. Os estudantes tinham aqui o seu espaço de convívio e de desenvolvimento de atividades culturais. Para além da música, liam-se poemas, textos e, como era natural na época em que se vivia, muitos dos textos eram manifestos revolucionários pró-independência.

Por altura da Revolução do 25 de abril, a casa sofreu grande destruição e, com a falta de habitação que na época havia na cidade de lisboa e mesmo nos bairros na periferia, foi ocupada por famílias essencialmente Cabo-Verdianas.

Zeferino Boal conta a história de um sócio que viveu o período conturbado da revolução do pós-25 de abril em Portugal. É um sócio que gosta de escrever e que já desafiou para relatar, por escrito, os acontecimentos vividos, durante as ações violentas levados a cabo pela extrema-esquerda no pós-25 de Abril. Foi um dos principais defensores, arriscou a vida para defender a Casa de Angola. A história das Instituições não pode ser ignorada e se a Casa de Angola falasse muitas histórias teria para contar.

 

O segundo ciclo da Casa de Angola: intervenção política

Estávamos no final dos anos 80, precisamente em 1989, quando um grupo, do qual fiz parte apenas como associado, porquanto era ainda um rapaz bem jovem, se reuniu e conjugou esforços para retomar a atividade própria da Casa de Angola

 

Casa de Angola, sala de exposiçõesAquando da visita oficial a Angola de Mário Soares na qualidade de Presidente da República, foi possível mover algumas influências e colocar na agenda o tema da associação Casa de Angola. Neste seguimento, foi decidido a devolução do edifício à Casa de Angola, tendo a Câmara Municipal de Lisboa realojado as famílias e o governo de Angola apoiado financeiramente a execução de algumas obras necessárias à requalificação do edifício.

O segundo ciclo da Casa de Angola caracteriza-se pela intervenção política do governo. Nos anos 90, a Casa de Angola era subsidiada pelo governo de Angola cooperando como um instrumento político.

Para ultrapassar a dependência política, no decurso do ano de 2004, organiza-se uma equipa diretiva constituída por representantes das várias forças políticas existentes na época. Não procedeu, a crise instalou-se, os apoios financeiros de Angola foram cortados e a direção sem soluções, foi acumulando dívidas e a inércia acomodou-se.

 

2010 – A nova equipa de liderança

Era necessário fazer alguma coisa e em 2010 emerge um novo ciclo, com Zeferino Boal a ocupar a vice-presidência. Há uma aposta numa linha de ação mais independente de tendências políticas. Fizeram-se opções, mas a gestão financeira não resultou e as facilidades que estavam prometidas não aconteceram, acabando por originar alguns estrangulamentos verificados que estavam os cortes nos subsídios. Passados 4 anos a Casa de Angola estava em crise financeira o que comprometia a sua continuidade.

 

Em 2014, abre-se um novo ciclo com uma nova direção

As associações, tal como todas as instituições, têm de ser bem geridas para que possam exercer a sua missão de forma independente e sem subsídios do estado.

 

É neste contexto e com esta linha de ação que Zeferino junto com outras pessoas, resolvem reerguer a Casa de Angola.

Zeferino Boal assume a presidência (por abandono da então presidente), e procura criar uma equipa dinâmica, competente e responsável. Conta, com graça, o episódio ocorrido em 2016, quando uma reconhecida artista Angolana, com uma exposição patente no espaço da Casa de Angola, não contente com as restantes “paredes vazias”, sobe as escadas para, no seu gabinete, lhe dizer o que considera estar mal, o que tem de mudar e se prontifica para o ajudar.

Zeferino diz que foi com algum receio que aceitou o desafio da mudança que esta mulher decidida, que se revelava conhecedora da cultura angolana tão convictamente lhe fez. Entregou-lhe a gestão cultural da Casa de Angola e diz-nos com orgulho que, Márcia Dias levou a peito o que lhe disse – “quero a Casa de Angola a funcionar 365 dias no ano”. Se antes de 2016 acontecia um evento por mês, agora chegam a realizar-se 3 eventos por semana.

Zeferino Boal tem-se empenhado juntamente com a sua Diretora Cultural, e com outros associados que colaboram pontualmente, a dar uma nova vida, uma nova dinâmica e dignidade à Casa de Angola.

 “trabalho da Marcia, trabalho nosso e de outras pessoas a passar a palavra a Casa de Angola ganhou notoriedade. Isto tudo sem apoios”

 

Casa de Angola - Zeferino Boal, Presidente e Marcia Dias Diretora Cultural
Casa de Angola – Zeferino Boal, Presidente e Marcia Dias Diretora Cultural

 

Quem faz as organizações são as pessoas

Zeferino Boal e Márcia Dias, duas pessoas de personalidades muito fortes, mas que trabalham com um objetivo comum.

A Casa de Angola, uma marca que tem muito para crescer, projetada para ajudar

 

Zeferino Boal diz que, com Márcia Dias, aprendeu a conhecer arte, aprendeu a identificar os artistas que têm qualidade, e aprendeu a respeitar todos os artistas, mais ou menos consagrados, a visibilidade é não só para a Casa de Angola é para todos. Desta forma funcionam como uma parceria que projeta o artista e dá credibilidade à Casa de Angola. Infelizmente, por vezes, os estados e as organizações aproveitam-se dos bons artistas e deixam-nos cair quando já não precisam deles.

 

O principal foco das atividades é de cariz cultural

Zeferino Boal e a sua equipa tem promovido uma diversidade de projetos de âmbito cultural, social e científico. Têm realizado eventos como: lançamento de livros, participando em congressos, conferências, exposições de artes plásticas e outras, na Casa de Angola, em outras galerias situadas em Portugal e em outros países.

 

Uma marca forte, sempre em crescimento e inovação, um polo aglutinador das várias associações angolanas na área metropolitana de Lisboa

Deve permitir atender as necessidades dos seus sócios em termos:

  • Culturais/Literários,
  • Solidários,
  • Formação e promoção de emprego,
  • Intercambio e captação de oportunidades para o país,
  • Fazer o que outros organismos oficiais não podem fazer, como ser o braço armado com quadros competentes para projetar o país.
A Casa de Angola, uma marca que tem muito para crescer, projetada para ajudar
Exposição na Casa de Angola

No âmbito da imprensa escrita, a casa de Angola coopera com a revista oficial do Consulado Angolano – Mukambu e com o jornal Kandango (Abraço) – Jornal das Comunidades Lusófonas, impulsionado por um angolano (escritor), residente em Portugal. Um projeto editorial da Vivências Press News.

 

A Casa de Angola é uma Marca com futuro

 

A Casa de Angola tem uma boa equipa a trabalhar para todos os seus sócios. Todos têm a porta aberta sem distinção. A Casa de Angola é para ser amada por todos.

Um problema que se fazia sentir –  para além dos poucos sócios que existiam a grande maioria não pagava cotas. Hoje, não há ninguém que faça uma exposição na Casa de Angola que não se faça sócio e não pague as respetivas cotas. Com mais cerca de 700 sócios cumpridores das suas obrigações, a Casa de Angola teria condições financeiras para dar outro tipo de apoios. Zeferino Boal afirma que: “com uma gestão rigorosa e com sócios que cumprem o pagamento das cotas, é possível ter associações desta natureza”.

Atualmente, com a consolidação das contas, a Casa de Angola recebe qualquer artista vindo de qualquer parte do mundo.

A Casa de Angola é uma marca que pode crescer muito mais, será no futuro aquilo que os associados quiserem.

A Casa de Angola é dos sócios, mas ainda precisa de mais, para levar por diante a relevante missão desta associação. Tem as portas abertas a associações e a pessoas. Uma vez que já têm um número significativo de sócios, já consegue negociar protocolos com outras entidades gerando mais benefícios e abrindo portas para quem precisa.

 

O Papel da Casa de Angola em Portugal

Em Portugal há uma multiculturalidade em franco crescimento e a Casa de Angola pode ser um importante pilar entre Portugal e Angola. Não necessariamente e apenas segmentada para questões culturais, sociais ou literárias, mas também como polo impulsionador e fomentador das vontades de crescimento social e económico.

A Casa de Angola, no intercâmbio ser um polo, que os representantes do governo de Angola e de Portugal

No intercâmbio ser um polo, que os representantes do governo de Angola e de Portugal, as embaixadas e os consulados não podem fazer, mas a Casa de Angola tem história para isso, tem quadros para isso

 

O restaurante sob a responsabilidade de Paulo Soares

Paulo Soares gere o restaurante instalado no rés-do-chão da Casa de Angola. Aprendeu a cozinhar com a mãe e herdou a sua paixão pela comida angolana.

Parabéns ao seu Presidente Zeferino Boal, à diretora cultural Márcia Dias e a Paulo Soares, responsável pelas deliciosas refeições servidas no restaurante.

 

A equipa da Casa de Angola. Marcia Dias, Paulo Soares e Zeferino Boal
A equipa da Casa de Angola. Marcia Dias, Paulo Soares e Zeferino Boal

 

Facebook Casa de Angola

 

Brevemente publicaremos uma entrevista a Marcia Dias no seu papel de diretora cultural da Casa de Angola.

Também pode gostar

Deixar uma resposta