À conversa com Sofia Corte-Real autora do livro “As Migalhas de Beirute”

foto Beirute-Paris

Sofia Corte-Real, pseudónimo Sofia Costa Brava, é autora de um livro intenso que que resulta das suas próprias vivências e, que num ato de coragem, num mergulho íntimo, transforma num livro de ficção. Com isto, procura prestar uma espécie de homenagem a um seu amigo de infância, refugiado de Beirute, e a todas as crianças vítimas da guerra.

 

“O que ele ainda não sabia era que um homem sem família era um homem sem horizonte”

Excerto de As Migalhas de Beirute.

 

Sofia Corte-Real, fale-nos um pouco de si e do seu percurso de vida que a traz de Paris para Portugal.

É um percurso igual a tantos outros. Os meus avós emigraram nos anos 60 para França e os meus pais por lá ficaram. Conheceram-se em Paris e eu nasci já no pós-25 de abril. Foi quando frequentava a secundária que vim para Portugal, nos anos 90. Não foi uma adaptação fácil, porque mal falava português, mas, mais uma vez, os livros foram uma preciosa ajuda.

Julgo que o gosto pelas viagens e a facilidade em mudar de pouso está-me no sangue.

 

Sempre gostou de livros e um dia começou a escrever, como foi sentir esse despertar?

Quando eu era pequena, a minha mãe comprava todas as semanas um livro: uma semana escolhia eu, na semana seguinte o meu irmão. Por vezes, eu acabava por ler o livro que o meu irmão trazia, apesar de ser mais velho do que eu. Não tinha muitos brinquedos, mas tinha muitos livros.
Ainda assim, nunca tinha pensado em escrever um livro. Tudo começou quando vivia no Médio Oriente, no Dubai. Dava algumas aulas de Português Língua Estrangeira, mas as horas que lecionava não me preenchiam o dia e, como não consigo estar parada, sem fazer nada, foi quase naturalmente que comecei a escrever. Foi a minha terapia para ocupar o tempo livre.

 

Utiliza um pseudónimo –  S. Costa Brava, porque esta escolha?

Na verdade, não tenho uma razão muito especial. Optei por utilizar um pseudónimo devido ao tema do livro. Pronunciar-se sobre o(s) conflito(s) do Médio Oriente é sempre complexo. Não há neutralidade. Ser neutro já é tomar partido.
Quanto ao nome em si, despertou-se-me quando atravessava de carro a Costa Brava, em Espanha. Achei que soava bem como pseudónimo.

 

Como aconteceu o processo de criação do seu primeiro livro? 

No Dubai, vivia num condomínio e, de noite, quando o ar era mais fresco e ameno, todos os vizinhos se juntavam para conviver. Um dos casais era libanês. Ambos eram refugiados, tinham fugido da guerra de 2006 com Israel. Conversava muito com eles. Na altura, despertou em mim uma memória que me tinha marcada muito em criança. Nos anos 80, lembro-me de assistir diariamente no telejornal a reportagens da guerra civil libanesa. Era uma guerra em direto. Um dia, frequentava eu o 6.º ano, um novo aluno é integrado na minha turma. Acontece que vinha precisamente de Beirute. Era refugiado. Tornámo-nos muito amigos. Durante os anos em que a nossa amizade durou (até vir para Portugal), ele nunca quis falar sobre a guerra. Isso marcou-me e nunca esqueci. Acredito que os meus vizinhos do Dubai despertaram esta memória.

As Migalhas de Beirute é uma espécie de homenagem ao meu amigo e a todas as crianças vítimas da guerra.

 

 

Sofia Corte-Real, qual a experiência de vida que mais a marcou positivamente e/ou mais a inquietou?

Em bom rigor, a experiência da minha vida que mais me marcou foi/é ser mãe.
Para além disso, há um sem-fim de experiências que me marcaram tanto positiva como negativamente. É-me impossível escolher apenas uma. Vai também dependendo da nossa sensibilidade em determinada fase da nossa vida e da nossa história.

 

“As Migalhas de Beirute: quando a História se cruza com a ficção”. Pode-se dizer que é um mergulho íntimo, um trabalho de escultura onde a realidade se romanceia?

Escrever é sempre um mergulho íntimo. É abrir-se ao outro. É mostrar a nossa essência. Nem sempre é fácil. No meu caso, as próprias personagens do livro, apesar de ficcionais, são sempre o reflexo das minhas convicções, dos meus receios, das minhas aspirações.

Por vezes, escrever é mesmo um ato de coragem.

 

Como foi desenvolver todo o processo de, a partir de uma realidade conhecida por si, construir o “corpus” do livro?

As Migalhas de Beirute é um livro que exigiu muita pesquisa, nada foi deixado ao acaso. As personagens são do domínio da ficção, mas os acontecimentos são reais, ou seja, as personagens foram embrenhadas em acontecimentos que efetivamente aconteceram. Os cenários caracterizados também são reais.

Cada pormenor foi verificado, como por exemplo, a cor das cadeiras do hospital ou as companhias aéreas que ainda aterravam no aeroporto de Beirute durante os conflitos, uma vez que o aeroporto fechava não raras vezes.

 

 

Sofia Corte-Real, considera que a sua escrita é uma forma de se manifestar com os problemas do mundo e ser interventiva na sociedade?

Não tenho tamanha presunção. Porém, sempre apreciei a literatura de intervenção. A arte pela arte não me diz muito. Há que haver mais do que isso. No livro, apresento todas as perspetivas. Sem mercê. É um livro cru, com uma linguagem forte, tal como o tema. Não é possível utilizar uma linguagem bucólica quando se retrata a guerra, quando falamos de crianças chacinadas, que não merecem ser esquecidas.

No livro “As Migalhas de Beirute”, apresento as várias verdades, porque, numa guerra, por norma, há sempre várias verdades e todas elas são válidas.

 

No seu processo de criação, o que é mais importante para si o lugar ou o tempo para escrever?

Tenho a facilidade de escrever em qualquer lugar e a qualquer hora, mas não consigo escrever com barulho. Se pudesse escolher, optaria pelo silêncio da noite, no meu escritório.

 

Qual a melhor forma de escrever… Escrever o livro que quer escrever ou algo que esteja na moda ou encomendado?

Eu creio que todos escrevem aquilo que gostariam de ler enquanto leitor. Pelo menos, eu escrevo.

Quando estou no processo de escrita (estou atualmente a escrever outro livro), penso sempre: se eu fosse leitora, o que é que gostaria de ler? O que é que gostaria que acontecesse agora? Por vezes, escrevo o contrário.

 

Para os estreantes na arte de escrever considera importante conhecer o ecossistema literário (editoras, oficinas literárias, escritores, etc.) de modo a ser mais fácil ultrapassar as dificuldades?

É muito importante. Se não tivermos ninguém a quem mostrar a nossa obra, é sempre frustrante.

Eu sou estreante, pelo que estou mesmo a dar os primeiros passos, mas tive a sorte de me associar a uma excelente editora, a Sana Editora, que me tem apoiado bastante e tem sido incansável na divulgação.

É muito importante envolver-se de boas editoras e, por acréscimo, de escritores e oficinas literárias.

 

Qual o efeito que o ensino tem no seu trabalho criativo?

Na verdade, são duas áreas bem distintas e não interferem numa na outra.

 

Que projeto gostaria de fazer, mas ainda não começou? Ou que livro gostaria de ler e ainda não existe?

O livro que eu gostaria de ler é aquele que ainda não li, no qual ainda não pensei, aquele que me irá surpreender, aquele que me irá fazer refletir.

Um bom livro é isso mesmo: aquele que surpreende, aquele com o qual refletimos e aprendemos.

 

Sofia Corte-Real, atualmente encontra-se a viver em Portugal, mas tendo passado por vários países, qual o seu local preferido para viver e se inspirar?

É, sem dúvida alguma, África. Regressei há poucos meses para Portugal. Adorei viver em África e tenciono regressar um dia.

Estou, aliás, a escrever um novo romance que tem como cenário a África do Sul, numa época em que o apartheid ainda reinava.

 

"As Migalhas de Beirute" de Sofia Cortereal
“As Migalhas de Beirute” de S. Costa Brava

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