O mar salgado, os homens do mar e as lendas

Ó mar salgado!

O mar salgado que inspira poetas e o povo português! Quando passeamos por alguma zona ou vila piscatória, apurando todos os nossos sentidos, temos à nossa disposição um vasto leque de imagens, de sabores e de cheiros que nos remetem para histórias reais de vidas difíceis e para outras histórias que, contadas de geração em geração, se transformaram em lendas. A situação geográfica de Portugal, dá-nos este privilégio de um contacto próximo com o mar e com os seus recursos.

De norte a sul do país, quando nos deliciamos com uma refeição de peixe fresquíssimo, quando junto ao mar observamos a faina dos pescadores, quando olhamos as frágeis embarcações de pesca, não podemos deixar de pensar que as lágrimas de que Fernando Pessoa fala “Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!” no seu poema Mar Português (pode ler no final do artigo), são também as lágrimas das famílias de pescadores que morreram no mar.

Este Monumento aos Náufragos, uma escultura colocada de frente para o mar, encontra-se na belíssima vila da Nazaré, na região Oeste e distrito de Leiria.

 

“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu”

 

Embarcações de pesca na foz do Rio Douro
Na Vila da Nazaré, o pescado e o artesanato

Já anteriormente havíamos falado sobre o mar da Nazaré no artigo Praia do Norte na Nazaré, mas ficou a promessa de voltar e aqui estamos nós, uma vez mais a falar do mar, dos pescadores e desta bela vila da Nazaré.

Na Nazaré, ao longo da marginal e também nas ruas estreitas e labirínticas tão características, não faltam locais para apreciar uma boa refeição de peixe, para comprar alguma lembrança do artesanato da terra que mostra a ligação das gentes da terra ao mar. Na variada escolha de artesanato local, salientamos as bonecas vestidas com o traje de festa ou de trabalho das mulheres da Nazaré bem como os pescadores vestidos com  ceroulas e barrete, e as miniaturas dos típicos barcos.

Artesanato – Criando miniaturas dos barcos típicos da Nazaré

Situados nesta vila piscatória, podemos apreciar as embarcações expostas na areia, o peixe a secar ao sol, os vendedores nas suas bancas expondo e vendendo o peixe seco. Tradicionalmente, o peixe como o carapau, a sardinha, a petinga, o cação e o polvo, que não era consumido ou vendido, ficava depois a secar ao sol. Esta era uma forma de conservar o pescado para os dias de escassez garantindo o sustento das famílias.  O peixe é primeiro “amanhado”, são retiradas as tripas, lavado e passado por uma salmoura feita com água e sal grosso. Depois é aberto, estendido nos paneiros e posto ao sol durante 2 a 3 dias.

A arte xávega

A arte xávega consiste num método de pesca tradicional de cerco e arrasto, praticada em algumas zonas piscatórias do país nas quais se inclui a Nazaré.
O equipamento de pesca possui um longo cabo com flutuadores, formando um saco de rede em forma cónica (xalavar). O xalavar é colocado em alto mar fazendo um cerco aos cardumes de peixe. A embarcação vai desenrolando a metade do cabo, ficando uma das pontas amarrada em terra. A xávega termina com a chegada a terra e abertura do xalavar que contém a pescaria. Antigamente a recolha era feita com a ajuda de juntas de bois e a força braçal, atualmente são utilizados tratores tornando o processo mais célere e menos doloroso.

 

 

Segundo painel explicativo existente no local sobre a embarcação Três Irmãos Leais, esta foi a última embarcação licenciada para a prática da Arte Xávega, registada na Capitania do Porto da Nazaré

As cores do arco-íris

Mas não pode visitar a Nazaré sem subir pelo funicular ao Sítio da Nazaré.

Chegando ao Sítio, a vista é deslumbrante! Aqui nesta praça, pode também apreciar o edificado, visitar os monumentos religiosos como o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, também conhecido como a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, a Ermida da Memória, também referida como Capela da Memória. No largo deste bairro da vila da Nazaré, pode comprar mais alguma lembrança nas múltiplas lojas que expõe os seus produtos, ou comprar, a alguma simpática vendedora ou vendedor, as tradicionais bolachas de frutos secos entre uma boa variedade de frutos secos simples.

Os penedos e a vista deslumbrante do Sítio da Nazaré sobre o mar e a vila

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Simpática vendedora mostrando as suas 7 saias. Segundo a tradição popular, as sete saias representam as sete virtudes; os sete dias da semana; as sete cores do arco-íris; as sete ondas do mar, entre outras atribuições bíblicas, míticas e mágicas que envolvem o número sete.

 

Por mim, gosto de associar o simbolismo das 7 saias às sete cores do arco-íris. São belas cores escondidas na luz incolor, que me recordam que há coisas que nem sempre são observáveis à primeira vista.

 

Curiosidades sobre o número 7

Entre outras, aqui ficam descritas algumas simbologias associadas ao número 7:

  • O número 7 é considerado um número “perfeito”, por quase todos os cultos e tradições e está associado como um número de poder.
  • O número 7 é o da perfeição, pois Deus abençoou o sétimo dia e reservou-o como sagrado para Lhe ser inteiramente dedicado.
  • Na arquitetura da Bíblia, verificamos que, no seu todo, é constituída por sete ou múltiplos de sete.
  • Segundo as crenças e lendas, na China a alma precisa de 7 unidades de tempo para ficar livre do corpo.
  • Na Grécia antiga havia 7 sábios.
  • Para os egípcios, o 7 é o símbolo da vida eterna.
  • Segundo a tradição japonesa e tibetana, 7 dias dura o estado intermediário entre a vida e a morte.
  • Para os hindus há 7 centros sutis ou 7 chacras. Os quatro períodos do ciclo lunar são de 7 dias.
  • O 7 une o número do espírito, 3 com o número da matéria, o número 4.
  • 7 são os anjos diante do trono de Deus (Gabriel, Miguel, Haniel, Rafael, Camael, Zadquiel, Zafiel).

 

Mas, também viemos até ao Sítio da Nazaré, para lhe contar uma versão da lenda de D. Fuas Roupinho, uma das mais famosas lendas da história de Portugal.

 

                     “Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.”

 

Fernando Pessoa

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