À conversa com Isabel Soares – Fruta Feia, contra o desperdício alimentar devido à aparência

Fruta Feia, um projeto sustentável económica, social e ambientalmente, que Isabel Soares idealizou como resposta à necessidade de reduzir o desperdício alimentar por motivos meramente estéticos, porque a qualidade dos produtos não pode ser avaliada apenas pela sua aparência.

Este problema começou a indignar-me e a ideia começou a crescer na minha cabeça como uma necessidade, como uma maneira de canalizar estes produtos diretamente dos agricultores até aos consumidores que, tal como eu, não julgam a qualidade pela aparência.

 

– Gente bonita come fruta feia –

 

Fruta Feia para Gente Bonita que combate o desperdício alimentar por motivos estéticos

 

Como surgiu a ideia de um projeto cujo objetivo principal é redistribuir parte da produção horto-frutícolas desperdiçada e gerar um mercado para as hortaliças e frutas “feias”?

A ideia do projeto surgiu no final de 2012. Quando morava em Barcelona, vi um documentário sobre o desperdício alimentar onde descobri que havia um enorme desperdício de frutas e hortícolas devido a meras razões estéticas. Entretanto, meteu-se um Natal em que vim a Portugal e onde estava um tio meu agricultor ao qual perguntei se de facto se desperdiçava tanta fruta devido a razões estéticas, ao que ele me respondeu que naquele ano tinha deitado fora cerca de 40% das suas pêras – super saborosas! – simplesmente por serem demasiado pequenas.
Este problema começou a indignar-me e a ideia começou a crescer na minha cabeça como uma necessidade, como uma maneira de canalizar estes produtos diretamente dos agricultores até aos consumidores que, tal como eu, não julgam a qualidade pela aparência.

Ao ler um jornal português um dia em Barcelona apercebi-me que estava a ser desenvolvido em Portugal um concurso – “Ideias de origem portuguesa” – pela Fundação Calouste Gulbenkian, destinado a portugueses que residiam no estrangeiro e tinham uma ideia de um projeto para o país.

Essa foi a motivação necessária para começar a transformar a ideia da Fruta Feia num projeto viável e sustentável económica, social e ambientalmente. Em Junho de 2013 ganhei o 2º prémio deste concurso que, juntamente com uma campanha de crowdfunding, permitiu o arranque da Fruta Feia, em Novembro de 2013.

O Projeto Fruta Feia de Isabel Soares

 

Quem são os mentores do projeto? (Por favor, façam uma breve apresentação).

A mentora do projeto sou eu – Isabel Soares. Engenheira do ambiente, 37 anos, trabalhei 7 anos no desenvolvimento de modelos de negócio nas áreas do Ambiente e das Energias Renováveis, em pequenas (ex. DonQi Windmill) e grandes empresas (ex. EDP), em Espanha e Portugal. Em 2013, concorri ao concurso IOP da Fundação Calouste Gulbenkian com a ideia da “Fruta Feia”. O segundo prémio deste concurso, juntamente com uma campanha de crowdfunding, permitiu-me regressar a Portugal e arrancar com a Cooperativa Fruta Feia em novembro de 2013, da qual sou hoje em dia trabalhadora e Presidente da Direção. Coordenei de setembro de 2015 a setembro de 2018, o projeto FLAW4LIFE ao abrigo do Programa LIFE da UE, cujos beneficiários eram, para além da Fruta Feia, a CML e o IST.

Numa breve síntese como, onde funciona a cooperativa “Fruta Feia”? Quando iniciou a sua atividade?

Desde 2013, a Fruta Feia luta contra o desperdício alimentar, canalizando desde os agricultores da região até aos consumidores as frutas e hortícolas rejeitados por meras razões estéticas (cor, formato e tamanho). Na prática, todas as semanas trabalhamos diretamente com os produtores da região, passando nas suas hortas e pomares para comprar as frutas e hortaliças pequenas, grandes ou disformes que estes não conseguem escoar. Com estes produtos, e com a ajuda de uma equipa de voluntários, preparamos cestas de dois tamanhos diferentes para vender aos consumidores associados à Cooperativa em pontos de entrega espalhados pelo país. Os consumidores pagam uma quota anual de 5€ e o preço da cesta sempre que a vão buscar (podem cancelar a cesta sempre que quiserem).
Atualmente temos 11 pontos de entrega por todo o país, estando em Lisboa, Almada, Parede, Amadora, Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Braga. Contamos com uma rede de 218 produtores e mais de 5500 associados que semanalmente evitam que cerca de 15 toneladas de frutas e hortícolas vão parar ao lixo.
Fruta Feia - Beringelas muito originais
Fruta Feia – Beringelas muito originais, dispostas num belíssimo arranjo que apetece levar para casa

 

Uma cooperativa que vende produtos que, por não serem esteticamente perfeitos, acabariam no lixo tem conseguido crescer de modo significativo. Como explicam o vosso sucesso?

A Fruta Feia é um projecto inovador, tanto no problema que tenciona solucionar como na metodologia que criou para esse efeito.

Foi o primeiro projeto em Portugal e no mundo a apresentar uma solução prática para o problema do desperdício alimentar devido à aparência e a montante da cadeia agro-alimentar (nos agricultores), devolvendo essa responsabilidade diretamente aos consumidores.

Resgatou o conceito de cooperativa de consumo (por definição é um grupo de pessoas que se une em torno de uma causa), que caíra em obsolescência, e criou um modelo de consumo justo que aproxima agricultores e consumidores, fazendo a ponte de ligação entre as duas partes.

Para os agricultores, a Fruta Feia representa um aumento nas suas receitas, pois agora conseguem vender os seus produtos feios a um preço justo, que outrora eram forçados a desperdiçar. Ainda que um dos possíveis destinos para este tipo de produtos seja a Indústria de sumos, a Comissão Europeia aponta para um desperdício entre 30 a 50% neste processo produtivo, para além dos agricultores considerarem esta opção economicamente inviável uma vez que o valor pago pelos produtos “feios” é na sua esmagadora maioria inferior ao custo de produção.
Para os consumidores, a Fruta Feia permite ter acesso a produtos da época e da região a um preço que equivale a metade do preço dos supermercados, para além de os transformar num peça ativa de combate ao desperdício alimentar e de apoio à agricultura local.

O facto da Fruta Feia atacar um problema tão grave e ilógico e de o fazer de uma maneira tão transparente, fez com que muitas e pessoas se revissem na nossa proposta de consumo, desenhando assim o sucesso do projeto.

 

Ter possibilidade de consumir produtos da época e da região a um preço mais baixo, tem sido um dos fatores do vosso sucesso?

Não só mas também. A grande adesão que tivemos por parte dos consumidores deve-se a várias razões: uma maior consciência em relação ao desperdício alimentar e vontade de contribuir para a sua redução; crescente vontade em praticar um consumo de proximidade; possibilidade de acesso a produtos frescos, de qualidade, da época e da região a preços acessíveis; vontade de fazer parte de um coletivo que luta para solucionar localmente um problema global.

A relação de proximidade que se cria com os dinamizadores do projeto em cada ponto de entrega fideliza os consumidores da Fruta Feia, originando um sentimento de pertença ao projeto e fortalecendo o sentido de comunidade.

 

O projeto amadureceu ao longo dos seus 6 anos de existência. Quantas delegações existem ao longo do território nacional?

A Fruta Feia funciona neste momento de segunda a quinta-feira em 11 locais, das 17h às 21h, para os consumidores que se associaram previamente à Cooperativa. Os nossos pontos de entrega são:

Região de Lisboa:

  • Segunda-feira nos Anjos 70 (Regueirão dos Anjos, nº 70, Lisboa)
  • Segunda-feira no Lagar em Telheiras (Rua Professor Francisco Gentil, nº 33, Lisboa)
  • Terça-feira no Mercado do Rato (R. Alexandre Herculano, n° 54, Lisboa)
  • Terça-feira no Mercado das Torcatas (Av. do Cristo Rei, 2805-185 Almada)
  • Quarta-feira, na Trienal de Arquitectura de Lisboa (Campo de Santa Clara, nº 144, Lisboa)
  • Quarta-feira no Mercado da Venteira (Rua Aleixo Ribeiro, Amadora)
  • Quinta-feira na SMUP Parede (R. Marquês de Pombal, nº 319, Parede-Cascais)

Região Norte:

  • Segunda-feira na CIAP Cruz de Pau (R. da Cruz de Pau, n° 153, Matosinhos)
  • Terça-feira no Ginásio do Torne (Rua 14 de Outubro nº 264, 4430-046 Vila Nova de Gaia)
  • Quarta-feira, na Cooperativa Povo Portuense (R. do Paraíso, nº219, Porto)
  • Quinta-feira na antiga Escola Dr. Francisco Sanches (Rua Dom Pedro V, 1B, 4710-356 Braga)

 

Como desafiam os produtores a aderir ao vosso projeto? Quantos produtores já aderiram?

Atualmente trabalhamos com 218 produtores espalhados pelo território nacional. A parceria surge de duas maneiras. Por um lado temos uma tarefa contínua de procura de novos agricultores, ou seja, entramos nós em contacto com eles para estabelecer uma parceria. Por outro lado, temos muitos agricultores a entrarem em contacto connosco, por terem conhecido o projeto nos meios de comunicação social ou por conhecerem amigos ou vizinhos que já trabalham connosco.

Qualquer agricultor pode ser nosso fornecedor desde que cumpra certas condições: tenha frutas ou hortaliças feias que não consegue escoar por razões estéticas mas que sejam de boa qualidade, esteja dentro da nossa rota de recolha dos produtos e tenha atividade agrícola aberta nas Finanças.

 

Qual o impacto que, com este projeto, ambicionam provocar na população, consumidores e produtores e no meio ambiente?

Os impactos da Fruta Feia são facilmente divididos nos três pilares da sustentabilidade:
  • AMBIENTAL – redução do desperdício alimentar (1830 toneladas até à data), valorização dos recursos utilizados na sua produção (água, energia e terrenos agrícolas) e contribuição para a redução das emissões de GEEs resultantes da decomposição dos alimentos que não consumidos minimizando as alterações climáticas daí decorrentes;
  • ECONÓMICO – atribuição de um valor económico às frutas e hortícolas outrora rejeitados, gerando uma rentabilidade extra aos agricultores e, simultaneamente, permitindo aos consumidores terem acesso a produtos da época e da região a um preço que equivale a metade do preço dos supermercados;
  • SOCIAL – empoderamento dos consumidores na resolução de um problema ambiental, valorização do trabalho dos agricultores, criação de postos de trabalho e mudança do paradigma de consumo de que a qualidade se mede pela aparência.
Como impacto paralelo está a consciencialização da população para a problemática do desperdício alimentar devido à aparência, e a desconstrução da ideia de que fruta feia é lixo. De pequenino se torce o pepino, e daí termos lançado um pacote de atividades de Educação Ambiental. Estas atividades são cruciais para sensibilizar desde cedo as crianças para os impactos ambientais, sociais e económicos do desperdício alimentar e para promover escolhas conscientes enquanto consumidores, fomentando um futuro mais sustentável onde as pessoas não julgam a qualidade pela aparência.
O sucesso da replicação da Fruta Feia é essencial para garantir o seu impacto e é, portanto, nosso objetivo continuar a replicar o nosso modelo de consumo alternativo noutros pontos do país através da abertura de mais delegações.
Cenoura “feia”? ou Cenoura “original”?

Tem sido fácil consciencializar a população para a problemática do desperdício alimentar devido à aparência dos produtos hortofrutícolas, levando-os a consumir “Fruta Feia”?

É difícil avaliar isso de maneira objetiva. O que podemos dizer é que temos tido uma enorme receção por parte de todas as pessoas que já ouviram falar da Fruta Feia. Desde o seu arranque em 2013, cada vez mais pessoas se têm inscrito para aderir ao projeto, pelo que contamos actualmente com cerca de 5500 consumidores que semanalmente levantam o seu cabaz e mais de 16.000 pessoas em lista de espera.
Temos estado presentes em dezenas de conferências e eventos nacionais e internacionais, e temos centenas de artigos publicados nos media, o que contribui para a disseminação da nossa mensagem além-fronteiras. Paralelamente, depois de termos elaborado o “Guia para um Consumo Sustentável”, manual de boas práticas que foi enviado às autarquias portuguesas e outras instituições internacionais, fomos convidados a integrar o Painel Consultivo da Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, o que permite colocar em cima da mesa a questão do desperdício alimentar devido à aparência e contribuir para que esteja presente na agenda política.

Tem tido apoios financeiros ou outros? Estabeleceram parcerias ou fizeram candidaturas a fundos europeus?

A Fruta Feia contou para o seu arranque com o 2º prémio do concurso FAZ – IOP, da Gulbenkian, juntamente com uma campanha de crowdfunding, no sentido de cobrir os custos iniciais de investimento. Após o seu arranque, a Cooperativa atingiu o seu objetivo de ser financeiramente auto-sustentável. Isto significa que as receitas derivadas da venda dos cabazes é suficiente para cobrir os custos deste serviço (produtos dos agricultores, custos de transporte, salários dos trabalhadores). Embora a Cooperativa seja financeiramente auto-sustentável e consiga ter uma margem de excedente capaz de financiar o seu próprio crescimento, esta margem é demasiado pequena para que haja um crescimento ao ritmo que o problema exige. Por esta razão desenvolvemos um projeto (FLAW4LIFE) co-financiado pelo programa LIFE da União Europeia, juntamente com o IST e a Câmara Municipal de Lisboa, em que a Fruta Feia era o coordenador e responsável pela replicação do projeto em várias cidades. O FLAW4LIFE teve início em 2015 e terminou em 2018, período durante o qual a UE co-financiou o arranque de 8 pontos de entrega.

 

Como podem os nossos leitores, contribuírem para a redução do desperdício alimentar, sendo consumidores de “Fruta Feia”?

Apenas têm que se inscrever no nosso site: http://frutafeia.pt/consumidor/register e aguardar uma vaga. Chamamos as pessoas por ordem de inscrição e quando surgir uma vaga receberão um e-mail para se juntar a nós, formalizar a inscrição e começar a consumir Fruta Feia.

O nosso plano a curto prazo é abrir uma delegação por ano. Cada delegação permite dar resposta a mais 500 pessoas na lista de espera, contratar mais uma pessoa para a equipa e evitar mais 1,5 toneladas por semana.

Os locais dos pontos de entrega são escolhidos em função dos bairros onde há mais pessoas inscritas para serem consumidores, daí pedirmos que as pessoas se inscrevam no site mesmo que não haja um ponto de entrega perto da sua residência.

Em relação à abrangência, chegámos à conclusão que faz sentido abrir novos pontos de entrega em grandes centros urbanos, onde as pessoas estão mais dependentes dos supermercados e por isso têm menos acesso à fruta feia.

 

Site Fruta Feia|Gente Bonita

Facebook: Fruta Feia

Também pode gostar

Deixar uma resposta