À conversa com Vitor Encarnação

José Carlos Albino levou-nos a conhecer Vitor Encarnação. Um Alentejano, que “adora viver nestas terras planas e nestes montados” que sobre si diz “Sou do sul, não saberia ser de mais lado nenhum”. Para saber um pouco mais sobre Vitor Encarnação, o homem de alma grande como as grandes planícies Alentejanas, escritor que fala sobre a condição humana, o professor que procura avivar nos alunos o gosto pelos livros e para conhecer as suas obras, aqui fica uma sua entrevista.

 

“… a escrita é uma forma de poder regressar ao passado e antecipar o futuro, no fundo poder ir a sítios onde o tempo e o corpo, os dois maiores limitadores da nossa vida, não nos deixam ir”

 

 

Conte-nos um pouco da sua história de vida, o que o levou a descobrir e a desenvolver o seu dom da escrita.

Nasci em 1965 na Aldeia de Palheiros. Vivi em Ourique, Castro Verde, Feijó, Amadora, Laranjeiro, Moscavide, Sintra e Alemanha, mas conclui que não podia viver noutro sítio que não fosse o Alentejo.

Sou licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, vivo e trabalho em Ourique onde sou professor de Inglês e Alemão no Agrupamento de Escolas.

A primeira vez que me apercebi que a escrita era uma forma de resolução do mundo, pelo menos do interior, foi ao escrever as redacções na escola primária. Descobri desde então que a escrita é uma forma de poder regressar ao passado e antecipar o futuro, no fundo poder ir a sítios onde o tempo e o corpo, os dois maiores limitadores da nossa vida, não nos deixam ir. O tempo e o corpo só nos deixam viver no presente. Basicamente, e dando vazão ao peso do pensamento, a escrita permite-me ir resolvendo a complexidade da existência.

 

 “O maior e mais viciante hábito que eu tenho é observar, observar os outros, entender-me a mim perante os outros e perante a vida e depois concluir, duvidar, perguntar.”

 

Como surge a inspiração para escrever? De factos reais vividos ou é pura imaginação? Ou tem um conjunto de hábitos que cultiva para se manter criativo?

A realidade, ou pelo menos a minha percepção dela, está sempre presente. Parto do que sinto ao vê-la e ouvi-la e junto-lhe a minha experiência de vida e as minhas expectativas. A idade dá-nos memória. O maior e mais viciante hábito que eu tenho é observar, observar os outros, entender-me a mim perante os outros e perante a vida e depois concluir, duvidar, perguntar.

As palavras surgem facilmente quando a imaginação e/ou a preocupação o leva a querer falar sobre um determinado tema?

Sim, o tema é para mim fundamental. O tema situa-me, enquadra-me e então vou mais focado, e ao mesmo tempo mais liberto, e tento encontrar palavras e significados que não estejam demasiado gastos e se aproximem daquilo que eu quero transmitir.

 

“E de preferência de Inverno, não gosto do Verão para escrever, há demasiada luz. Os meus dois cães estão quase sempre presentes quando escrevo.”

Em que momento do dia sente que trabalha melhor? Tem algum ritual de preparação para a escrita?

Por questões profissionais e de disponibilidade mental gosto muito mais de trabalhar à noite. E de preferência de Inverno, não gosto do Verão para escrever, há demasiada luz. Demoro algum tempo a concentrar-me no texto, começo quase sempre aos solavancos e depois, encontrado o rumo, raramente adio o que tinha previsto fazer. Os meus dois cães estão quase sempre presentes quando escrevo.

Tem escrito para crianças. É fácil escolher as palavras certas para contar uma história e transmitir algo às crianças?

Escrever para crianças é um exercício mais complexo, é preciso ir à procura de palavras que tenham substância e despertem interesse e ao mesmo tempo sejam facilmente decifráveis por que tem um vocabulário mais curto. E uma vez escrita a história é preciso contar com a franqueza e a assertividade das crianças porque quando não gostam não têm nenhum pejo em dizê-lo.

 

“À medida que vamos envelhecendo, amadurecidos o nosso olhar e o nosso entendimento, conseguimos perceber que a mais banal e quotidiana condição humana contém em si todos os temas do mundo”

O que acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? E o que diria a si mesmo se pudesse voltar aos seus primeiros escritos?

A idade muda-nos, acho que quando somos jovens andamos sempre à procura de temas grandiosos e sublimes. À medida que vamos envelhecendo, amadurecidos o nosso olhar e o nosso entendimento, conseguimos perceber que a mais banal e quotidiana condição humana contém em si todos os temas do mundo.

 Quando leio o que escrevi aos quinze anos sei que tudo aquilo era fruto de um conjunto de circunstâncias e que não poderia ter sido de outra forma. Nunca acuso, portanto, o jovem escritor que fui. Diria apenas que me imaginava a escrever mais do que afinal tenho escrito.

 

“O Alentejo é o meu espaço e o meu tempo, é o meu centro de gravidade, não me esgoto nele, não esgoto a minha escrita nele, mas a minha identidade adora viver nestas terras planas e nestes montados.”

Nasceu e vive no Alentejo. Encontra inspiração no Alentejo, nas suas paisagens, nas pessoas e costumes?

O Alentejo é o meu espaço e o meu tempo, é o meu centro de gravidade, não me esgoto nele, não esgoto a minha escrita nele, mas a minha identidade adora viver nestas terras planas e nestes montados.

Talvez este texto explique melhor o que quero dizer:

Sul

Sou do sul, não saberia ser de mais lado nenhum, já tentei ser de outro sítio, já tentei permanecer noutro lugar, mas não consigo estar em mais lado nenhum, vou e volto, fui e voltei sempre. Sou das paredes brancas, as paredes brancas são folhas onde os meus sentidos escrevem os dias que passam, é nelas que faço as contas à vida, é nelas que aponto o que falta, é nelas que segredo os sonhos, é nelas que procuro a transparência, há qualquer coisa nas paredes brancas que me faz inteiro. Sou dos pássaros, sou dessas asas inquietas, desses olhos voadores, se eu pudesse imitava-os e fazia contrabando de liberdade. Sou da lonjura, sou da distância grande, sou do espaço que falta, sou do eco, sou do horizonte maior, sou das léguas, sou da imensidão. Sou das planuras, sou dessa terra escorreita, as planuras não escondem nada, quem vê planuras vê corações. Sou do silêncio e sou das vozes, as vozes cantam o silêncio, o silêncio é uma voz. Sou do sol, sou da torreira, sou do pino da calma. Sou do pó, sou do azinho, sou da cisma, sou das cegonhas, sou das estevas, sou do vinho, sou da pronúncia, aceito a minha herança, aceito o que me foi deixado, o que me foi deixado é uma fortuna. Sou do pão, tenho côdea a cobrir-me a pele, tenho miolo no pensamento, tenho coentros e alhos e azeite dentro de mim, basta juntar água quente que fico feliz.

Na sua condição de professor, julga ser fácil incutir o gosto pela escrita e pela leitura aos jovens de hoje? O que pensa sobre a importância da leitura na formação dos jovens?

Não é uma tarefa fácil, não é ingrata mas não é fácil. Trabalho com dezenas e dezenas de alunos, conheço-lhes os hábitos, os passatempos, sei qual é a sua relação com os livros, sei a dificuldade que eles têm em ler e interpretar, sei que o critério de escolha de um livro para um qualquer trabalho obrigatório é a espessura desse mesmo livro, sei que oferecem livros porque o autor é conhecido da televisão, sei que vão aos centros comerciais e não entram em livrarias, sei que recebem livros que não abrem, sei que os seus pais não lêem, sei que lá em casa o livro, se existir, é um acessório decorativo, objeto de morrer virgem na estante da sala, sei quem frequenta a biblioteca para ler. Um livro é uma maçada, não há paciência para ir descobrindo, para ir disfrutando, lentamente, cada palavra, cada parágrafo, como se fossem chaves para ir abrindo horizontes, um livro demora muito a chegar ao fim, não tem teclas de avanço rápido, não dá respostas rápidas e superficiais.

Todos os alunos que contrariam este último parágrafo são excepções, contam-se pelos dedos, vão sendo uma espécie em vias de extinção, os guardiões de um fogo quase extinto. 

Como o fogo ainda não está extinto é preciso ir avivando a chama.

Quem é o seu autor preferido e qual a obra?

É uma pergunta difícil, eu sou fruto de muitos autores, gosto de muitos, gosto de livros de autores de que não gosto tanto e não gosto de todos os livros dos autores de quem gosto muito. A Enid Blyton e o Júlio Verne criaram-me, o Herman Hesse formou-me, o Saramago despertou-me, o Afonso Cruz encanta-me.

Há alguma obra sua ou algum outro texto com o qual mais se identifique.

Os meus livros são um processo cronológico de identidade. Todos eles significam coisas, boas e más, superficiais e profundas, que causam indiferença ou que, ocasionalmente, merecem uma leitura. Juntos são a minha memória.

 

“Sou uma pessoa desassossegada e emocional, dou-me bem com a solidão, sou avesso a grandes certezas, aparentemente contraditório nos hábitos e paixões”

Fale-nos de si enquanto “pessoa”, o que mais gosta de fazer, quais os seus sonhos e projetos futuros?

Sou uma pessoa desassossegada e emocional, dou-me bem com a solidão, sou avesso a grandes certezas, aparentemente contraditório nos hábitos e paixões porque adoro literatura e ao mesmo tempo adoro futebol, porque adoro viajar e ao mesmo tempo adoro rotinas.

Tenho o sonho de escrever um romance, mas tenho muitas dúvidas de que isso seja um projecto com futuro. 

 

“A eterna e frágil condição humana”

Com toda a certeza que há muito mais a acrescentar sobre o autor e as suas obras. No entanto, pedimos que nos revele um pouco do seu livro “Nada mais havendo a acrescentar”.

Será o “Nada mais havendo a acrescentar – livro 3”. Tudo começou em 2013 com o começo da minha rubrica semanal no jornal Diário do Alentejo. A cada dois anos é publicada uma colectânea das crónicas escritas durante esses espaços temporais.

Já foram publicadas 208 crónicas e serão agora reunidas em livro as últimas 104.

Este livro, tal como os outros dois, é sobre a parte de dentro das pessoas e guarda, para memória futura, a minha visão do tempo em que eu vivo. São cento e quatro textos à procura de um nexo relativamente à vida e a todos os seus reversos.

Cada texto equivale ao espaço temporal de uma semana, a um número de jornal. A reunião de todos num livro mais não faz do que os juntar, porque eles fazem parte do mesmo tronco. O jornal separa-os no tempo e no espaço, no livro eles agarram-se uns aos outros. 

Nenhum dos textos tem uma data que o restrinja e todos tratam de assuntos que mais não são do que a eterna e frágil condição humana. Pretendo que cada um faça sentido e tenha uma identidade independentemente do tempo em que se vive. Gostava também que cada um, na interpretação do leitor, sobrevivesse à espuma dos dias.

O livro será apresentado na Biblioteca Municipal de Ourique no próximo dia 24 de Abril. 

 

Hucilluc viajou na leitura com este escritor, obrigada Vitor Encarnação. A leitura é uma forma de felicidade. Sejam felizes!

 

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