Azul, de Vítor Encarnação

Porto Covo

Azul, um texto de Vítor Encarnação, que nos faz recordar imagens gravadas na memória de fins de tarde junto ao mar onde cai um céu azul. O mundo onde vivemos é azul e azul é o céu que nos cobre.

Não conheço azul mais profundo do que o deste céu que cobre o sítio onde eu vivo.

 

 

Janela
“… das janelas veem-se lonjuras.” – Vítor Encarnação

 

Azul

Não conheço azul mais profundo do que o deste céu que cobre o sítio onde eu vivo. O sítio onde eu vivo fica na margem da planície, no dia em que as planícies voltem a ser feitas de água, o sítio onde eu vivo será o cais, e será dele que eu, capitão de um barco de cortiça e azinho, partirei em sonhos de chuva, entretanto, quer as planícies quer o sítio onde eu vivo são feitos de pó e de calma, as únicas coisas altas são as casas e as árvores que não precisam de água. O sítio onde eu moro é uma casa grande feita de pronúncia, é a pronúncia que é as paredes da casa e das janelas veem-se lonjuras.

A vida toda parece ser uma lonjura, mas quando damos conta estamos irremediavelmente tão perto de chegar ao fim, e por isso, para não esmorecermos, ensinaram-nos a acreditar no céu. A fé no céu é a fuga ao medo, as pessoas do sítio onde eu vivo cantam para não terem medo.

Eu acredito neste céu, aliás não sei acreditar em muito mais, também não sei cantar, acredito neste céu azul porque não há azul mais profundo do que este, eu tenho a certeza de que não há nada mais cerúleo em nenhuma latitude e nenhuma longitude.

Eu sei que não devia amar assim tão perdidamente este azul, este azul mata-nos de sede, este azul queima as rosas, este azul bebe a água toda, este azul é um teto que se abate sobre nós, mas eu amo este azul porque ele é o peito onde bate o sol.

 

 

Do autor Vítor Encarnação pode ler:

A vida é um rio, de Vítor Encarnação

Luz, um texto de Vítor Encarnação 

Encruzilhada, um texto de Vítor Encarnação;

Abraço, um texto de Vítor Encarnação 

Vinho, Vítor Encarnação;  

A serenidade nos tempos de vírus – Vítor Encarnação

Flor de Laranjeira, Vítor Encarnação 

Já nada existe antes da primavera, Vítor Encarnação 

Amor impossível, Vítor Encarnação

Levantar Cedo, Vítor Encarnação

Estiagem, Vítor Encarnação

Esquecimento, Vítor Encarnação

Língua mãe, Vítor Encarnação

Azeitonas, Vítor Encarnação

Hora Zero, Vítor Encarnação 

Autoestima, Vítor Encarnação

O Livro do Tempo, Vítor Encarnação

Contentamento, Vítor Encarnação

Labirinto,  Vítor Encarnação

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