Quintal, crónica de Vítor Encarnação

Tratar a terra, jardinar no quintal
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Quintal é uma Crónica de Vítor Encarnação publicada no jornal Diário do Alentejo. Hoje partilhamos uma crónica do escritor Vítor Encarnação que fala da necessidade de quebrar a rotina diária embrenhando-se na terra e nos produtos que ela nos dá. Cada vez mais, os especialistas a afirmam que mexer na terra, sujar as mãos, plantar e ver crescer a vida que brota da terra, faz muito bem à saúde física e mental e, por outro lado, todos sabemos que é imperioso viver em harmonia com a natureza preservando a sua diversidade.  Leia esta crónica e inspire-se para as suas práticas de quebra da rotina.
“Gosto de podar, um toque aqui, outro ali, faço de conta que sou um cabeleireiro de árvores e arbustos e encho uma saca de cabelos vegetais.
Depois vou para o alegrete, passo da hortelã para o alecrim, dos poejos para os limões, da salsa para os coentros, ando de joelhos no chão, o nariz a recolher os aromas e a mandá-los para o cérebro, a limpar o cérebro do mofo dos papéis.”
flores no quintal
“Gosto de libertar flores e de lhes dar água, dar água às flores liberta-me.”

Quintal

A minha rotina é feita de papéis, debaixo do braço, dentro de malas, em cima de secretárias. Desde que me lembro há folhas e livros a preencherem-me os dias. Há na relação com o papel um vício que raramente é quebrado e que toma conta do meu sistema nervoso. Quando pressinto que já não vejo mais nada para além de capas e letras e páginas, quando as atas e os relatórios me começam a torturar, quando o pensamento nebuloso inaugura um estado de ansiedade dentro de mim, é tempo de parar, é tempo de ir fazer coisas com as mãos. Vou para o quintal, pego num sacho, arranco as ervas daninhas e liberto as flores. Gosto de libertar flores e de lhes dar água, dar água às flores liberta-me. Gosto de podar, um toque aqui, outro ali, faço de conta que sou um cabeleireiro de árvores e arbustos e encho uma saca de cabelos vegetais.  Depois vou para o alegrete, passo da hortelã para o alecrim, dos poejos para os limões, da salsa para os coentros, ando de joelhos no chão, o nariz a recolher os aromas e a mandá-los para o cérebro, a limpar o cérebro do mofo dos papéis. Depois enterro os dedos na terra, preciso de ter terra debaixo das unhas, as mãos sujas, o suor a escorrer cara abaixo enquanto cavo fundo, enquanto aliso a terra. Depois bebo água fresca e como uma bucha a meio da manhã. O rádio está sempre ligado e eu vou trauteando canções. Quando as pessoas trauteiam canções é porque estão felizes.
Hortências
“Depois enterro os dedos na terra, preciso de ter terra debaixo das unhas, as mãos sujas, o suor a escorrer cara abaixo enquanto cavo fundo, enquanto aliso a terra.”

 

 

Do autor Vítor Encarnação pode ler:

Liberdade e responsabilidade, Vitor Encarnação

Lenha, um texto de Vítor Encarnação

Recordações , um texto de Vítor Encarnação

Senhora da Cola, um texto de Vítor Encarnação

A nossa praia, de Vítor Encarnação

Azul, de Vítor Encarnação

A vida é um rio, de Vítor Encarnação

Luz, um texto de Vítor Encarnação 

Encruzilhada, um texto de Vítor Encarnação;

Abraço, um texto de Vítor Encarnação 

Vinho, Vítor Encarnação;  

A serenidade nos tempos de vírus – Vítor Encarnação

Flor de Laranjeira, Vítor Encarnação 

Já nada existe antes da primavera, Vítor Encarnação 

Amor impossível, Vítor Encarnação

Levantar Cedo, Vítor Encarnação

Estiagem, Vítor Encarnação

Esquecimento, Vítor Encarnação

Língua mãe, Vítor Encarnação

Azeitonas, Vítor Encarnação

Hora Zero, Vítor Encarnação 

Autoestima, Vítor Encarnação

O Livro do Tempo, Vítor Encarnação

Contentamento, Vítor Encarnação

Labirinto,  Vítor Encarnação

Entrevista de Vítor Encarnação

 

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